Mulheres de Peso

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Seja de forma delicada, ou demonstrando força,
elas provam que lugar de mulher é onde ela quiser
Durante muito tempo no mercado de trabalho, algumas profissões sempre foram vistas como mais “masculinas”, enquanto outras pareciam se adequar mais no perfil “feminino”.
No esporte este cenário também não era diferente. Algumas modalidades pareciam bem mais acessíveis aos homens do que à mulher. Com o passar do tempo esse cenário mudou, e o espaço segue a cada dia mais aberto para elas. Mesmo que a batalha pela igualdade seja uma constante, a mulher já consegue provar que o lugar dela é onde ela quiser.

 

A educadora física Claucys Sousa, é um exemplo de que é possível trabalhar e se dedicar à uma modalidade, mesmo que seja vista por muitos como “masculina”. Atualmente ela é a técnica responsável pela seção do Levantamento de Peso Olímpico (LPO), do Esporte Clube Pinheiros e relata que desde o começo enfrentou olhares desconfiados.

 

“Comecei em 2010 e naquela época não tínhamos tanta informação como hoje. Em princípio eu iniciei pela estética, porque vi que teria benefícios físicos, mas com o passar do tempo percebi que era algo bem maior, que envolvia competição, então fui amadurecendo a ideia de me aprofundar ainda mais”.

 

Foi justamente o que Claucys fez, não só passou a competir como iniciou faculdade de educação física, já com o propósito de se especializar no LPO. Inclusive no primeiro ano da graduação já conciliava os estudos, com o esporte, dando aula para os seus colegas de treino e ajudando seu treinador.

 

“Entre treino e faculdade eu fui me especializando até chegar aqui. Eu particularmente costumo ser muito focada, quando quero algo, vou atrás. A família e os amigos tiveram um pouco de resistência. Até mesmo o pessoal da faculdade criticava: ‘você não terá mais joelhos quando estiver com 30 anos’, mas era tudo pela falta do conhecimento da modalidade, hoje o número de mulheres que praticam aumentou muito”.

 

Ambiente feminino
De acordo com a técnica, inclusive no Pinheiros a procura feminina tem sido cada vez maior. As mulheres já são maioria no ginásio de LPO. Um dos motivos que ela acredita contribuir para que as associadas se sintam à vontade em praticar, é a presença de uma mulher como treinadora.
“A mulher primeiro olha o ambiente, se for muito masculino, sem alunas, fica um pouco inibida, pensando: ‘vou ou não vou, será que isso é só para homens’? O levantamento de peso já é visto como atividade mais masculina, mas quando passam e veem uma mulher na sala, se sentem mais à vontade para entrar e perguntar. Muitas chegaram dessa forma”.

 

Mas se por um lado as mulheres se sentem mais encorajadas em praticar LPO, por outro a técnica não nega que entre o público masculino, sua presença por vezes causa estranheza. “No cenário do esporte de forma geral, existem poucas treinadoras mulheres, então acho que o cara espera chegar aqui e ter como professor um homem fortão. Quando chegam e veem uma mulher magra, acham estranho”, brinca Claucys.

 

E para quem pensa que o Levantamento de Peso Olímpico é um tipo de esporte destinado apenas a atletas de alto rendimento, está enganado. Pode ser uma ótima alternativa para quem busca a prática de alguma atividade física que trabalhe o corpo inteiro.
O LPO é composto por duas modalidades: o arranco e o arremesso, que são inclusive as duas provas olímpicas. Em competições, os pontos de ambas são somados conforme os pesos levantados para se obter o resultado final. Na busca pelo aperfeiçoamento técnico o LPO pode reunir mais de 700 exercícios, abrangendo força, habilidade motora e capacidade física.

 

No caso específico das mulheres, vale ressaltar que independentemente de biótipo, estatura e peso, é perfeitamente possível praticar. “O que vai diferenciar uma mulher de 1,80m para outra de 1,50m, é a medida da barra e a adaptação ao movimento. Os exercícios são os mesmos, porém, modificados de acordo com as características físicas do atleta”, esclarece Claucys.
O LPO também pode ser adaptável a qualquer idade. Atualmente, o Clube conta com uma associada de 72 anos na modalidade que, ao ver os resultados positivos do filho, resolveu ingressar nas aulas. E para aquelas que acham que praticar LPO torna a mulher mais masculina, Claucys afirma que não passa de um mito.

 

“No LPO, o corpo trabalha de forma mais natural, com melhor performance física e musculatura mais resistente. Você fica forte, mas não se torna grande. A maioria das mulheres tem algum receio devido a esse mito. O corpo fica mais definido, mas não exageradamente. Continua feminino”.

 

Dos 8 aos 80
Uma prova concreta de que não existem restrições e de “quem vê cara, não vê capacidade”, é a atleta Giovana Alves de Souza Tavares, 16. Logo que chegou ao Pinheiros com sete anos de idade, a jovem praticou ginástica artística por mais de sete anos e no final de 2019 resolveu arriscar-se em um novo desafio.

 

“Eu gostava bastante da ginástica, mas o tempo foi passando, eu fui crescendo e comecei a ficar desmotivada, pois, por coincidência, sempre que chegava perto de uma competição eu acabava me lesionando. Conversei com o meu técnico em 2019 e falei que estava pensando em sair”, conta a atleta.
O técnico a convenceu Giovana a esperar pelo menos até o fim do ano para ter certeza de que era mesmo o que ela queria. Em dezembro, Claucys esteve no ginásio da ginástica e viu Giovana treinar. A técnica comentou com o treinador da jovem, que a menina levaria jeito para o LPO. Ele comentou que a menina estava deixando a ginástica e propôs um teste no LPO para se verificar a eventual troca de modalidade.

 

“Meu professor conversou comigo sobre a troca e eu fui enfática: ‘levantamento de peso, eu? Nunca, jamais’. Mas ele insistiu e pediu para eu fazer pelo menos uma aulinha experimental para ver o que achava”, lembra Giovana, que não só experimentou, como gostou e resolveu encarar o novo desafio. Com duas semanas de treino, passou por um teste, que serviu para confirmar a transferência de modalidade.

 

“Comecei a treinar e duas semanas depois tivemos uma competição interna, para avaliar como estávamos. Eu não iria participar, mas acabei encarando. Tinha acabado de aprender os movimentos e eu conseguia levantar no máximo 30kg. No dia do torneio peguei 35kg. Optei pela transferência sem dúvidas.

 

Giovana conta que a decisão também causou estranhamento, entre suas companheiras da ginástica e até mesmo em sua mãe, que no começo não gostou muito da ideia, mas após assistir a competição, passou a compreender o esporte e a apoiar a filha.

 

Mais forte e mais saudável
Devido à pandemia e o consequente fechamento do Clube, Giovana teve pouco tempo para praticar o novo esporte em 2020. Contudo, tanto Claucys, quanto a atleta já percebem mudanças significativas em relação ao potencial na nova “pesista”. Ela chegou ao LPO as vésperas de completar 15 anos, com 1,48m e pesando menos de 45 quilos.

 

Hoje, aos 16, Giovana mede 1,50m, parece inclusive mais madura e está com 50kg, adquirindo cinco quilos de massa magra. Deixou de levantar os 35 kg iniciais para levantar 80kg no arremesso e 60kg no arranco.
“Ela tem uma estrutura física forte, mas como vinha de um estilo de treino mais leve, até a alimentação era diferenciada. Quando começou no LPO, teve que dobrar a quantidade de comida devido à exigência do treino. Na ginástica o treino era mais longo e aqui é um período menor, porém, o desgaste é muito maior. É preciso repor o que foi gasto para a recuperação física. Temos acompanhamento de nutricionista” reitera Claucys.

 

Giovana também está feliz com os resultados e aguarda ansiosa pela participação em sua primeira competição oficial, o que deve acontecer em breve. De acordo com Claucys as expectativas são boas e a jovem tem grandes chances de começar com o pé direito, mesmo com pouco tempo de experiência.

 

“Apesar dos seis meses que ficamos parados, o resultado que ela faz hoje é de pan-americano sub20. Iremos para uma competição e se der tudo certo, ela poderá quebrar recordes”, conclui a treinadora.

 

Para as meninas que têm interesse em conhecer a modalidade, mas ainda ficam inseguras, Giovana deixa um recado. “Se você sentiu interesse, não tenha medo, venha. No começo eu também não queria, mas eu vim, experimentei, gostei e fiquei. Venha fazer uma aula experimental e conhecer melhor o LPO. Em relação ao seu corpo, não ligue para o que as pessoas vão falar, porque só você sabe o que é melhor para você. No final vai valer a pena. Além disso, é muito bom quando você pensa:  nunca imaginei que fosse conseguir pegar esse peso. Agora eu consigo”.

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