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Entrevista com Dijamila Ribeiro

No mês do lançamento do Pinheiros Inclui, a Revista deu voz à mestra em Filosofia, autora de um best-seller brasileiro, colunista do jornal Folha de S. Paulo e da revista Marie Claire, Djamila Ribeiro.

Com dois livros — Lugar de Fala e Quem tem medo do feminismo negro? — traduzidos na Europa, a pensadora percorre o Brasil fazendo palestras para auditórios lotados e tornou-se uma das principais referências da atualidade na área de direitos humanos. Na entrevista, a escritora conta sobre a importância de programas de inclusão e um pouco do seu mais recente livro, Pequeno Manual Antirracista.


Este mês o ECP está lançando um programa de inclusão e diversidade. Qual é a importância de políticas como essa?
Nunca se falou tanto desses temas como hoje. Têm muitas empresas criando comitês de diversidade no Brasil nos últimos anos e é importante quando a instituição entende isso. Não adianta esperar que as coisas mudem naturalmente, precisa de fato tomar ações nesse sentido, porque entende a responsabilidade social de redução de desigualdades.

Como sensibilizar quem tem o poder de promover as mudanças?
Muitas vezes o argumento que funciona é o econômico, porque, de fato, os estudos sobre diversidade mostram que um ambiente mais diverso é muito mais propenso à inovação, à criatividade, você aumenta o seu público consumidor e ganha mais. Na Noruega o argumento que eles utilizam é o econômico, quanto mais mulheres economicamente ativas, é melhor para a economia do país.

Por lá quem pensou essa política?

Foi um político do Partido Conservador e o argumento que ele usou foi muito interessante, ele falou: ‘se a gente não criasse essas políticas íamos somente contratar os homens com os quais jogamos golfe no domingo’. Se você convive só em um meio homogêneo você acha que só aquelas pessoas são propícias para determinados empregos e vagas. Você precisa sair da sua bolha, o mundo, a sociedade não são o seu grupo. A Noruega é um dos países que têm os melhores índices de igualdade de gênero.

Muito tem-se falado em privilégios. O que é privilégio e o que é direito?
Direito deveria ser todos nós deveríamos ter os mesmos. Mas por conta de alguns grupos terem privilégios, acabamos não tendo direitos. Se é privilégio de poucos, deixa de ser direito de todos. Porque qualquer preconceito cria opressões que beneficiam um grupo especificamente e faz com que os outros grupos fiquem hierarquicamente abaixo. Direito à educação é um direito constitucional, todos nós deveríamos ter direito a uma educação de qualidade. Mas como vivemos em um país extremamente desigual de direitos fundamentais e básicos acabamos não tendo acesso.

Essa consciência dos seus privilégios é uma construção individual?
A instituição pode ajudar com palestras e programas. Porque de fato as pessoas precisam refletir. Naturalizamos as desigualdades. Quando passamos a estudar sobre isso e a falarmos sobre isso começamos a descondicionar o nosso olhar e a entender porque aquelas coisas estão dessa maneira.

É possível alguém abrir mão de privilégio?
Não tem como você abrir mão, porque é uma coisa que está muito estruturada. Mas o que você pode fazer com isso? Acho que essa é a questão principal. Você é empregador, você está contratando pessoas negras? Contrata mulheres? Se é professor, trabalha sistemas na sala de aula? Se você está andando na rua e vê uma pessoa negra sendo discriminada você intervém?

O preconceito no cotidiano aparece de forma sutil. Como ele pode afetar uma pessoa e como combater?
Precisamos perder o medo de falar sobre isso. No Brasil tem muito essa coisa do ‘deixa disso’ ou ‘você que entendeu errado’, ‘melhor não se indispor’. Temos que começar a nos indispor. Acho muito complicado quando as pessoas falam para pararmos de falar no tema como se parar de falar fosse parar de existir.

Muitas vezes o racismo ganha um tom de humor. Isso também é perigoso?
Sem dúvida. Porque se a sociedade é racista, todos os espaços vão ser racistas. Às vezes os humoristas falam: ‘mas é só uma brincadeira’. Mas ele não está descolado da sociedade, também foi informado e recebeu esses valores. É justamente por isso que só temos piada contra negros, mulheres e homossexuais. E não é engraçado.

Você acha que a maior parte das pessoas está reproduzindo o que aprendeu?
Tem gente que é maldosa mesmo e vai fazer isso. Só pensar que tem nazista até hoje. Mas têm pessoas, a maioria, que reproduzem por ignorância. Aprendeu assim e acha que aquilo é o correto. Eu consigo identificar quando a pessoa está falando por maldade e não tenho necessidade nenhuma de conversar com quem quer me matar. Agora, dá para perceber quando a pessoa solta porque ela simplesmente não refletiu sobre aquilo.

Como devemos agir quando cometemos um ato discriminatório?
Ninguém está livre de reproduzir. Por isso acho que as pessoas têm que ser mais abertas, menos na defensiva. Porque às vezes quando você cobra: ‘mas isso que você falou é racista’, a pessoa fala ‘eu não sou racista, meu tataravô era negro’. Não, gente, assuma que foi racista e se pergunte como pode melhorar, refletir a partir disso.

Seus livros foram lançados em alguns países da Europa. Você sonhava com isso?
Não esperava. Lancei esse ano os dois na França. Volto agora, em novembro, para fazer um segundo tour de divulgação. Tem sido uma experiência muito interessante. Na França o debate racial ainda é muito difícil, incipiente, por incrível que pareça. A primeira turnê que fiz fomos para algumas cidades, como Paris, Lille, Toulouse, Montpellier. Na Bélgica, fomos para Bruxelas. O livro Lugar de Fala está sendo traduzido para o italiano e para o espanhol. Isso para mim é abrir um campo de diálogo.

Isso pode ser considerado até uma novidade: o livro de uma pensadora brasileira traduzido para outros idiomas…
Geralmente somos nós que importamos o conhecimento. Estudei filosofia e só estudamos França, Alemanha e Grécia. Então, fazer esse movimento contrário é importante. Normalmente eles traduzem ficção e romancistas. Agora traduzir pensamento crítico é realmente um movimento muito interessante e fico superfeliz.

Qual é a importância de um público da elite também ler seus livros?
É fundamental. Quando vou em eventos sempre tem uma pergunta de alguém branco ‘mas eu posso ler o seu livro?’ e eu falo ‘Deve! Leia, dê para os seus amigos, distribua no Clube. Você precisa ler, sair do seu lugar de conforto, não achar que a sociedade é você e o seu grupo’. Existe o Jardim Ângela, o Capão Redondo. Isso também diz respeito a você, se você é cidadão brasileiro.

Você foi convidada especial para assistir a um desfile em Milão da Prada. Qual a importância de ocupar esse espaço?
Foi meio choque. Quando chegou o convite pensei ‘gente, será que ele mandou certo?’. Foi uma experiência interessante, também acho que é legal. Interessante que a marca não queira somente pessoas com visibilidade. Acho legal quando a marca quer dialogar com pessoas que trazem um outro tipo de conteúdo, não só a questão da moda ou ser blogueira. E chegar naquele espaço acho que é um espaço que é importante a gente estar. E por que não?

Esse mês você está lançando um novo livro?
Sim. Pequeno Manual Antirracista pela Companhia das Letras, é um livro que dialoga e faz as pessoas refletirem que em uma sociedade como a nossa, como diz Angela Davis, não basta não ser racista, você precisa ser antirracista. Quais ações são importantes de se tomar para uma sociedade menos desigual e como as pessoas brancas podem refletir e ter atitudes antirracistas.

Foto: Estúdio Grade