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Entrevista com Arthur Nory

Em 57 segundos, tempo da apresentação na final da barra fixa no Mundial de Stuttgart, na Alemanha, Arthur Nory inscreveu definitivamente seu nome na história do ECP. O atleta, que já era responsável pela primeira medalha olímpica da Ginástica Artística pinheirense, conquistou também o primeiro ouro em mundiais da modalidade para o Clube. Em entrevista, o ginasta formado no Pinheiros contou sobre as conquistas inéditas, o começo da carreira e a temporada vitoriosa de 2019.

Este mês você está concorrendo na categoria Melhor Atleta do Ano do Prêmio Brasil Olímpico. O que fez de 2019 um ano especial?
Foi um ano de planejamento e conquistas. Desde o começo de 2019, toda a comissão técnica e os atletas estavam alinhados para classificar a equipe brasileira para a Olimpíada de Tóquio 2020 e conseguimos fazer isso. Traçamos estratégias e participamos de competições para alcançar essa meta. E, em paralelo, fui buscando o meu resultado individual, sabia do potencial que tinha e trabalhei muito para trazer bons resultados.

Há sete meses dos Jogos de Tóquio, como você está e o que muda na sua rotina?
Muda muito, porque preciso cuidar mais da saúde. Estou voltando do Mundial, tive problemas com o ombro, mas já estou cuidando e me recuperando. Agora estou acompanhando para prevenir qualquer tipo de lesão ou adversidade.

Como você trabalha também a questão emocional de saber se será ou não convocado para os Jogos?
Penso que tenho que estar bem no momento da convocação.
Conseguimos a vaga do País e agora são quatro atletas que serão convocados. No ano que vem quem tiver chances de medalha ou de chegar em uma final será convocado. É preciso muito treino e bastante foco para estar entre os melhores.

Você foi responsável pela primeira medalha de ouro da Ginástica Artística do ECP em mundiais. Você sabe a dimensão da história que está construindo?
Não (risos). Eu não tinha nem noção dessa informação, sabia que a medalha olímpica foi a primeira da Ginástica Artística do Clube. Eu sou um atleta de formação do Pinheiros, sou cria daqui. Então conheço todo o trabalho que o ECP proporciona para formação e estamos colhendo frutos desse investimento. Espero que essas conquistas virem um legado para os novos ginastas.

Como foi conquistar a medalha de ouro no Mundial?
Essa era uma medalha que estava buscando. Depois da Olimpíada pensei: ‘tenho uma medalha olímpica e não tenho do Mundial, vamos atrás dela’. E chegou logo de ouro, melhor ainda. Sabemos exatamente todo o trabalho que foi feito e que deu certo no final. Isso é um exemplo, não só para mim, mas para a comissão técnica que fez esse planejamento em conjunto. O esporte não tem uma fórmula, cada um responde de um jeito e respondi melhor desse jeito com esse trabalho que foi feito o ano inteiro. Tem esse sentimento especial por isso, de estar colhendo o que plantamos, não só este ano, mas na história.

Falando em história: você chegou ao ECP em 2005, esperava conquistar tantos títulos?
Já sonhava com isso desde pequeno. Depois que ganhei meu primeiro Brasileiro, em 2014, já estava pensando em participar de uma Olimpíada e conquistar uma medalha. Eu via a Daiane dos Santos e outros atletas do Clube disputando essas competições importantes e despertava em mim a vontade de viver essa experiência.

A Daiane dos Santos foi o seu primeiro ídolo e você chegou a treinar com a atleta aqui no Clube. Hoje você é a inspiração para essa nova geração. Como é estar do outro lado?
Com a Daiane dos Santos aprendi que é importante ter alguém em quem se inspirar e se espelhar. Ter alguém que te motiva e que mostra que é real e possível realizar seus sonhos. Quando você está próximo do seu ídolo se sente mais acolhido. Então tento passar isso hoje.

O esporte tem um lado de muito trabalho. Você também fala sobre isso com quem está começando?
Sim, esporte é muita dedicação, temos que pagar um preço alto. Na carreira teremos diversas lesões, vamos abrir mão de muitas coisas, a família às vezes interfere também. Se a família não apoia ou não é a favor fica mais difícil. Tem muita luta para chegar até onde sonhamos.

Você começou no Judô e depois foi para a Ginástica Artística. Como saber qual esporte realmente seguir?
Na Ginástica começamos muito cedo, então você é novo e não tem voz. Vimos na TV, mas é quando começa a treinar diariamente, quatro horas por dia, que sabemos como funciona. Meu pai achava que era hobby. Mas eu sabia que era algo que gostava muito e minha mãe via isso. Saía de casa e ficava aqui o dia inteiro. Isso é muito pessoal, é algo que tinha na cabeça desde pequeno e ninguém ia tirar de dentro de mim. Para mim foi boa a separação dos meus pais, fiquei distante e tive a Ginástica como refúgio.

O que você diria para os pais que hoje veem os filhos no esporte e acham que é apenas um hobby?
Os pais sempre querem o melhor para os filhos. Acredito muito que o esporte transforma a vida das pessoas, cria caráter e dá disciplina. Estar perto desses conhecimentos desde pequeno é muito importante. Não me encontrei no Judô, hoje gosto muito de assistir a modalidade. É importante ter essa vivência para saber do que gosta e não gosta para não se arrepender. Ter essa conversa com os filhos, ver do que gostam e apoiar sempre.

É verdade que sua casa é cheia de papeizinhos espalhados com mensagens que você escreveu para você mesmo?
Sim. Anoto minhas metas e objetivos, o que tenho em mente, para quando acordar ver o que quero. Coloco no espelho do banheiro e até no despertador. Isso foi influência da minha irmã, via ela escrevendo muito na parede. E eu pequeno não imaginava isso, depois comecei a pegar esse hábito, sem pensar.

O que você escreve?
Escrevo mais as metas, como, por exemplo, ‘eu quero ir para a Olimpíada’. ‘Quero ser medalhista olímpico’. ‘Bom dia, campeão mundial, bom dia, campeão olímpico’. Têm as metas a curto prazo, como ‘preciso recuperar o ombro’. São essas coisinhas que vão somando para me motivar cada vez mais.

Como manter o foco no esporte com tanta coisa acontecendo depois de uma conquista importante como o Mundial?
Depois da Olimpíada, soubemos dosar bem esse lado. Porque foi tudo muito novo, tanto para mim quanto para os meus treinadores. Além disso, deu repercussão nas redes sociais, o estouro de atleta mais seguido. Foi uma avalanche. Tivemos dois anos pós-olímpicos para entender esse outro lado que é importante. As redes sociais ajudam a fomentar o esporte: ver que além do resultado você pode somar muito mais, fazer com que as crianças vejam que existe a modalidade, que é possível chegar lá. Mas tem que saber dosar, tem que ter o planejamento. Quando tem uma competição importante o foco é outro.

Nas redes sociais você criou o Programa do Nono, também é uma forma de divulgar a modalidade?
O programa começou aqui no Pinheiros, estávamos no final de treino e eu queria mostrar de uma forma fácil para as pessoas como subimos no aparelho, como treinamos, qual exercício é mais difícil. E comecei a fazer no instagram e começaram a surgir outras ideias. Quando viajamos mostramos para onde vamos, o quarto, a seleção de Ginástica. Tudo para propagar o esporte de forma fácil e divertida. Você aproxima as pessoas. É muito esporádico, quando vem essa criatividade. Mas em competição é só no começo, quando está perto do dia de competir eu me fecho porque tem que se concentrar.

Você acha que hoje tem mais responsabilidade com o que divulga nas suas redes sociais?
Muita. Estamos aprendendo sempre e sabemos do peso que isso tem. Somos figuras públicas, formadores de opinião e referência. No começo, não tinha noção, vejo os meninos hoje aqui de 14 ou 15 anos e eles não têm a dimensão do que podem ser para outras pessoas. E estou também podendo ensinar isso para eles. Começar desde essa idade a pensar antes de fazer e se colocar no lugar do outro. Aprendi muito, isso foi uma evolução muito grande, e poder usar isso para o esporte, que é para todos, é muito importante.

Como foi conciliar a faculdade e a vida de atleta?
Foi difícil. É muito importante falar que o apoio do Pinheiros é sensacional para os atletas. Temos a bolsa de estudos e muita gente faz faculdade graças ao Clube. A gente pensa ‘posso ter uma formação, não preciso ser só atleta, posso conciliar’. Eu fiz Educação Física, então a coordenadora me ajudou. Ela entendia as temporadas em que eu ia para a competição. É difícil conciliar, principalmente quando viajamos para competir. Mas é importante. Com a faculdade comecei a entender de anatomia, de por que manda fazer isso, fui buscar esse conhecimento para poder me aprimorar e ter essa troca de sugestões com a equipe técnica para poder chegar mais longe. Já superamos tanta coisa, a faculdade é mais uma conquista para o atleta.

Você tem ciúme das suas medalhas?
Tenho, percebi que tenho (risos). Principalmente com a do Mundial. A da Olimpíada já está toda descascada. A caixinha também foi danificada. Eu deixo, pode olhar, mas não abusa.

O que podemos esperar do Nory em Tóquio?
Coisa boa, viu?! O Nory gosta de uma surpresa. Quem viver, verá (risos).