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Roberto Cappellano

Ao assumir a Presidência com 40 anos, Roberto Cappellano tornou-se o Presidente mais jovem da Diretoria. Após quatro anos de mandato o engenheiro conta como foi sua experiência de liderar o maior clube poliesportivo da América Latina, a importância de representar o ECP pelo País e o que aprendeu com o cargo.

Quando o senhor faz um balanço, não administrativo, mas dos dias que ficou na Presidência, foram mais momentos felizes ou mais problemas para resolver?

Foram dias de muito comprometimento e satisfação – nem de alegria, nem de problemas. Problemas e alegrias sempre tem. As conquistas esportivas, a criançada correndo no Clube, os eventos lotados de associados, tudo se torna alegria. Mas a satisfação de ver o Clube marchando num novo ritmo e mudando, acho que marcou o tempo que fiquei à frente da Presidência.

O senhor tinha ideia do que era ser Presidente?

Ideia eu tinha, só não sabia o ritmo insano que é. O que aumenta, quando assume o cargo, é a noção da responsabilidade. Você acaba se tornando uma figura pública no Clube e tem que tomar certos cuidados que antes não tomava, porque é observado 24 horas por dia não só dentro, como fora do Clube.

Como o senhor descobriu esse lado do cargo?

Você vai percebendo, se ambientando para poder começar a andar e trabalhar. Tocar o Clube não é brincadeira, não é lazer, longe disso. Não é você querer fazer as suas vontades e sim as vontades da coletividade. O Pinheiros todo tem problemas pequenos que podem se transformar em grandes, porque envolvem pessoas e o Presidente entra em praticamente todos os assuntos do Clube para resolver. Acho que não dei nenhuma mancada, porque de bobo não tenho nada, só a cara (risos).

O senhor teve que abrir mão de muita coisa para ficar quatro anos na Presidência?

Encarei esse período como uma missão, com muito comprometimento e responsabilidade, que é uma característica pessoal minha. Como você fica 24 horas à disposição do Clube é difícil viajar, ver a família e os amigos. Para mim, na minha idade, a vida profissional também complicou muito e os momentos de lazer e pessoais passaram a ser cada vez mais raros. Mas é prazeroso, não estou reclamando. Aprendi a dividir meu dia para ficar trabalhando para o Clube e para a minha empresa.

Como o senhor conciliou esses dois lados: ter de trabalhar e ainda administrar o Clube?

Tive que me virar. Deixar de fazer muitas coisas. Tem que priorizar as demandas do dia, no Clube todo dia tem que apagar um incêndio. Às vezes você deixa de ir encontrar amigos, festas, shows, porque o Clube exige muito. Tem atividades e eventos todos os dias. A única coisa que consegui não perder foi ir aos jogos do Palmeiras. E no trabalho você tem de se regrar melhor. Acordo muito cedo, vou para o escritório e aí tenho de sair três ou quatro horas da tarde. No Clube, ficava das 17 às 23h, todos os dias e nos finais de semana.

Falando em família. O seu pai foi Conselheiro, sua mãe foi uma das primeiras mulheres Conselheiras e sua irmã é a atual Conselheira. A política era assunto no jantar de domingo?

Não, no almoço (risos). Quem gostava de política na minha família era a minha mãe, desde os tempos estudantis. Ela empurrou o meu pai para ser conselheiro e ele foi. Ficou seis anos e nunca mais quis ser Conselheiro. Meu pai é um cara extremamente correto e exigente, e em política você tem que ter jogo de cintura. Já minha mãe adorava e sempre fez parte da política. Sempre foi muito aguerrida, atuante e admirada. Ela me disse que estava na hora de eu ser Conselheiro e entrei em 2002. Aí peguei gosto. A minha irmã veio depois, no começo ela não tinha gostado muito. Mas depois, não sei o que aconteceu, acho até que foi depois que a minha mãe faleceu em 2014 – ela continuou, pegou gosto pela política. E ela trabalha para caramba, fala com todo mundo.

Como a sua família recebeu a notícia que o senhor concorreria à Presidência?

Sempre fui bem resolvido e ciente das minhas ações. Simplesmente comuniquei que ia ser candidato. Aí faltavam uns 10 dias e falei ‘eu vou ganhar essa eleição’. Fui lá e ganhei. Eles comemoraram, ficaram felizes. Isso para a família é sempre uma glória. Afinal represento a minha família. Se estivesse fazendo burrada, era o nosso sobrenome que estava ali.

Quando se fala em política no Clube é um grupo pequeno que tem conhecimento ou a maioria conhece?

A maioria dos associados, pelo que vejo, quer vir ao Clube para descansar, largar o estresse e fazer uma atividade física ou cultural. Ele não quer se envolver, quer ficar tranquilo e se divertir, desde que esteja tudo funcionando bem e ele seja bem atendido. Tem uma turma pequena que gosta de política, seja aqui ou fora daqui, e está mais engajada.

Podemos dizer que são dois Clubes diferentes? Como é para o Presidente atender essas duas demandas?

Sim. O Clube real, do dia a dia, que é um espaço maravilhoso, é diferente da tensão dos problemas que aparecem e são lançados, de forma até irresponsável, em redes sociais. O cara que lê um comentário na rede social acha que o ECP está morrendo, quebrando, que é uma desgraça. E quando vem aqui vê que não é nada disso. Isso já aconteceu diversas vezes com o Clube. Tanto é que nas redes sociais as pessoas que postam isso caíram em completo descrédito. É dificílimo você ver, na internet, algum elogio. Já dentro do Clube, é um monte de pais, mães, avós, atletas que vêm agradecer, e todos os tipos de associados que te felicitam e cumprimentam. Tem associado que reclama quando tem que reclamar, mas é super respeitoso.

Como foi a relação dos associados com o senhor nesse período?

Nunca tive problema. Ninguém nunca me destratou ou foi agressivo comigo. Tem uns que estão tão ansiosos em resolver o problema que acabam se atrapalhando e não são tão polidos. Eu não tenho do que reclamar e também nunca deixei de atender ninguém.

O senhor foi o Presidente mais jovem da Diretoria. A idade fez diferença na sua gestão?

Sim, ajudou a rejuvenescer o Clube e deu um outro olhar. Isso é notório. Eu procurei, ao máximo, não alterar nada para o pessoal mais antigo, mas introduzir coisas para os mais novos também. Atividades, shows, esportes, inovações – dei um outro olhar para isso. A parte de gestão, infraestrutura, governança, sustentabilidade, implementação de serviços online, toda essa modernização do Clube, faz parte do meu dia a dia profissional. Trabalho assim. Rejuvenesci o ECP também fisicamente. Como cresci no Clube, pensei além da minha geração, pensei sempre em perpetuar o nosso oásis às gerações futuras. Resolver o presente pensando no futuro.

É preciso coragem para mudar?

É. O pessoal tem medo do novo, da mudança, receio de que piore. É do ser humano ficar confortável em uma posição. Se a pessoa não é empreendedora e um cara corajoso, ele não faz as coisas. Tive que me posicionar e tive coragem. Se eu não tivesse coragem, não teria feito nada.

O que fazia o senhor comprar brigas para implantar uma nova ideia?

Fazer um Clube melhor. Na vida você tem que ter coragem, tomar decisões e acreditar nelas. Foram várias questões ao longo da gestão, pequenas e grandes demandas do dia a dia, que você tem que ser firme e se posicionar. O pessoal não gosta de regra, mas um local com 40 mil pessoas se não tiver regras, como que faz? Você tem que acreditar nas suas convicções. Quem quer agradar a todos não agrada ninguém. Sempre fui bem tranquilo. Já tinha minha própria atuação e histórico como conselheiro. E por fim, tinha uma Diretoria muito boa também – ninguém faz nada sozinho.

Qual é a importância do Vice e dos Diretores?

Eles são fundamentais. Ninguém governa sozinho. O Marciano foi um grande amigo e parceiro. Estamos todos juntos. Num carro o motor é mais importante que a roda? Se não tiver o parafuso da roda e ela cair, de que serve o motor? Então, todo mundo é importante. Algumas diretorias são maiores e têm mais responsabilidade. Mas todas são importantes. E é tudo integrado. Você precisa do Esporte, mas precisa do Financeiro. O Clube é totalmente integrado. Um depende do outro.

Como o senhor se preparou para ser Presidente?

Não me preparei, não. Graças a Deus resolvo rápido e bem. Tive uma formação profissional, sempre trabalhei como engenheiro e sempre estive em posições de liderança, tanto profissionalmente quanto no esporte. Na minha formação, eu tive o esporte, que me ajudou a preparar em boa parte, de como tomar decisões em momentos de pressão. Tinha a experiência da minha profissão, a experiência de vida. Foi só juntar tudo e ir tocando. Tinha também experiência no Conselho. Já estava há quase 15 anos atuando lá.

O senhor descobriu alguma coisa no Clube que só sendo Presidente pode entender?

O amor dos funcionários pelo Clube foi algo que ficou mais evidente, eles gostam do ECP. O Clube também é um excelente empregador. O negócio é recíproco e também descobri que o Clube é 24 horas por dia e 365 dias por ano.

O que o senhor levará dessa experiência para a vida pessoal?

No quesito relacionamento pessoal aprendi muito. Relacionei-me com todos os níveis de intelecto. Conversei com muita gente de raciocínio diferente. Aprendi a ser muito mais maleável e flexível no convívio com os associados. Aprendi a escutar o problema do outro. Às vezes só de escutar e o cara desabafar com você, ele já fica tranquilo.

Mudou sua relação com o ECP?

Sim, comecei a enxergar tudo diferente. Entendi porque tem tal problema, porque não resolveu ou porque foi resolvido. Há uma estrutura para ele se manter assim, há uma série de processos e algumas limitações. Você olha o Clube de um outro jeito.

E como foi representar o Clube em outros lugares?

Representar o Pinheiros fora é mamão com açúcar (risos). O maior clube poliesportivo da América Latina, uma potência e um reduto de atletas, extremamente respeitado, com quase 120 anos. Eu fiz esporte competitivo, que você viaja, vai para um monte de clubes e lugares, você adquire o respeito dos outros. Representar o Pinheiros é um grande orgulho, uma grande honra e não tem dificuldade nenhuma. Onde você vai, o Pinheiros abre as portas. Só é ruim a agenda, que é muito puxada, e tem o lance da necessidade da representatividade do Presidente na maioria dos eventos.

Faria alguma coisa diferente?

Acho que não. Fiz o que acredito que era certo. Algumas coisas podem parecer que demoraram para acontecer, mas foi tudo parte do processo e da estrutura que o Clube tem, sempre tive a consciência que o Presidente não é o dono do Clube e precisa seguir as regras e estatutos. Estou conseguindo terminar os dois mandatos com a certeza de dever cumprido. Conheci muita gente daqui, de outros clubes, de outras instituições. Nesse aspecto, não faria nada de diferente. Tomei as decisões certas. O certo não significa agradar a todos, mas a maioria.

Quais foram os maiores desafios?

O maior desafio foi recuperar o caixa, tocar o Clube com reajustes menores que a inflação todos os quatros anos da gestão, e acabar com os privilégios. Implantar a cultura que todos somos iguais, a meritocracia e mostrar que o Clube é de todos. Isso é importante. Tenho certeza de que passei para os funcionários do Clube minha visão, minha forma de raciocinar, de ter um comprometimento com o dinheiro do Pinheiros. A minha forma de conduta, de trazer para todas as reuniões importantes os funcionários para participar, para que não ficassem de fora do processo. Acho que consegui envolver muita gente que não era envolvida antigamente.

Do que vai sentir saudades?

Do dia a dia com os funcionários. Foi uma relação muito boa. Da escolha dos grandes shows e da participação das decisões do esporte e das obras. E quem não gosta de mandar, né? (risos).

Como vai ser seu dia no 7 de maio? Primeiro dia como ex-presidente.

Vou voltar a ter uma vida normal. Não sou muito de programar o lazer. Acho que até por conta do meu trabalho. As viagens pessoais que faço são resolvidas com pouca antecedência. Diferentemente da vida que tive no esporte e tenho no trabalho, sempre programadas. O que sei é que no dia 7 à noite estarei com mais tempo pra mim, até lá eu resolvo, vou deixar a vida me levar.

Voltaria a concorrer a uma eleição?

Acho que pela minha idade e pelo trabalho que realizei no Clube vou ser sempre convidado a participar da eleição. Vai depender muito do momento que estiver vivendo. Contudo, para ser candidato não depende da minha vontade individual, depende da vontade do grupo, da coletividade que te apoia, e que te impulsiona. Agora a minha ideia é continuar sempre contribuindo para o Pinheiros. Tenho muito amor e gratidão pelo Clube.