“A MÚSICA E O ESPORTE SÃO, CADA QUAL A SEU MODO, PAIXÕES HUMANAS. AJUDAM A EQUILIBRAR A NOSSA VIDA ATRAVÉS DE UMA EXPERIÊNCIA REPLETA DE PROCESSOS.”

Dia 26 de setembro, o Salão de Festas será palco do Jantar Show do 116º Aniversário do Clube. O evento marca também a estreia da cantora Maria Rita em palcos pinheirenses. Um dos maiores nomes da nova música popular brasileira, a filha de Elis Regina e César Camargo Mariano tornou-se referência pelo canto refinado e repertório cada vez mais apurado.

Em entrevista à Revista do Clube, a artista falou sobre sua relação com o samba, a importância do palco e como faz para reconstituir a lembrança da mãe. Confira.

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Você se lembra do primeiro contato com o samba?
As coisas nos são apresentadas pelo destino. Com o passar dos anos vamos tomando conhecimento, ganhando consciência sobre o que se passou. Falo isso porque quando comecei a ouvir música, simplesmente ouvia e sentia. Não havia então uma necessidade de categorizar os gêneros. Havia o que gostava de ouvir e ponto. Assim, conheci o samba. Desde as canções vistas na televisão e ouvidas no rádio, até aquelas nas quais alguém ligado a mim estava trabalhando.

Você morou nos Estados Unidos, por um tempo. Neste período, o samba também a acompanhou? É diferente ouvir um samba fora do Brasil?
Sim, certamente, a audição de samba ou outro gênero brasileiro quando estamos fora, ainda mais morando, ganha novos significados e emoções.

De alguma forma você se preocupa com o contexto histórico que o samba carrega (expressão social, cultural e negritude)?
Eu amo e respeito a música e meu ofício. Sempre. Partindo dessa premissa, em que existe sentimento, fé e compartilhamento de experiências, é fundamental haver também intimidade e cumplicidade. Portanto, posso dizer que tenho um relacionamento profundo com o samba.

O que só o samba foi capaz de trazer ou de relevar?
Música traz elevação espiritual. Sinto isso ao cantar. Do ponto de vista prático, o “Samba Meu” trouxe algo importante para minha vida artística. Inaugurou outra fase da minha carreira, conectou-me a novas pessoas, tanto no público quanto nos parceiros de trabalho. E o samba permaneceu.

Como você chegou à sua “roda de samba” que tem nomes, como Arlindo Cruz, Noca da Portela e Serginho Meriti, e autores contemporâneos, como Rodrigo Maranhão, Xande de Pilares e Fred Camacho?
Cheguei cantando (risos). É o que faço e é como posso contribuir. Encanta-me ser acolhida por esses artistas e tornar-me parceira deles.

O que representa conquistar o seu 11º Grammy Latino com “Coração a Batucar”, eleito Melhor Álbum de Samba?
Crescemos ouvindo falar do Grammy, de sua importância e peso no mundo. Então, ganhá-lo é sempre um motivo de alegria, emoção e sentimento de confirmação. Ser reconhecida fazendo aquilo em que acredito é algo muito forte.

O show do “Coração a Batucar” é para as meninas borrarem a maquiagem e para os homens tirarem o chapéu?
(Risos). É sempre delicado falar de seu próprio trabalho, de si mesma, enfim. Digamos que é música para o corpo e para o coração.

O disco “Coração a Batucar” surgiu após a turnê que você fez com o repertório da sua mãe? Deu para perceber alguma mudança na cantora?
Se há algo orgânico nesse mundo é cantar. A cada show, a cada ensaio ou gravação, algo novo é acrescentado. Imagine então após um projeto como esse, com um repertório incrível cantado por minha mãe. Nesse momento, estou envolvida com a obra do Gonzaguinha e, cantá-la, transforma-me. Ora de maneira sutil, ora de modo mais profundo.

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E na filha, o que mudou após encarar 29 músicas que marcaram a carreira da sua mãe?
Conheci-a mais. E a amo cada vez mais.

Você teve pouco convívio com a sua mãe, como fez para reconstituir a memória dela?
É algo construído através dos seus registros (discos, entrevistas, fotos, vídeos) e também da memória de quem conviveu com ela.

Seu filho já entrou no estúdio para gravar ‘Vai meu samba’. Como foi?
Se pudesse separar a cantora da mãe, diria que se ele gravou algo é porque tem talento e vivência para isso. Só pode acontecer se for natural, espontâneo e positivo para meu filho. Acrescentar à sua vida. Como mãe, sinceramente, não há palavras para expressar.

Você é uma das melhores e mais refinadas cantoras da MPB. Como você avalia sua evolução e trajetória como cantora?
Agradeço as palavras. Creio não ser meu papel avaliar publicamente minha música. Faço
aquilo em que acredito e fico muito feliz quando alguém gosta. O olhar do observador altera as coisas. A essas pessoas - sim, são pessoas, indivíduos únicos -, devo minha sinceridade artística total. E isso eles têm de mim.

O que representa o palco para você?
O palco representa muito. É um lugar sagrado, emotivo, repleto de energia, de vida mesmo. É uma boa parte dela.

Você apresentará esse show no evento de Aniversário do Esporte Clube Pinheiros. O que os associados podem esperar?
Como é um organismo vivo, podem esperar algo baseado nas gravações originais, mas com algumas diferenças. Um show nunca é igual ao outro. A cada apresentação, passagem de som ou ensaio, uma pequena novidade surge.

Aproveitando, qual a sua relação com o esporte?
A música e o esporte são, cada qual a seu modo, paixões humanas. Ajudam a equilibrar a nossa vida através de uma experiência repleta de processos endógenos similares: endorfinas, serotoninas etc. Pratico, mas sempre fica um gosto de “quero e preciso mais”.