RogerioFlausino_04_foto.RicardoMuniz

É verdade que você precisou de 10 ensaios para entrar na banda?

Bem, na verdade, até hoje os caras não me disseram se estou dentro, ou não (risos). Tem muita brincadeira com esta minha entrada na banda, pois antes de mim, diversos garotos e garotas já haviam passado por ensaios e pequenas apresentações da banda. O lance é que o destino resolveu dar um empurrãozinho na gente e me colocou ali, naquele ensaio de 27 de outubro de 1993, e eu nunca mais saí (risos). Aliás, consideramos esse dia como o primeiro da existência do Jota Quest. Foi um tempo mágico, de descobertas e de aprendizado e, claro, de muita diversão.

Você sente saudades desse começo de carreira?

Tenho saudades de quando tudo era mais leve e despretensioso. Apesar de sempre termos trabalhado muito, a gente não se levava tão a sério, vivíamos de uma ingenuidade extremamente criativa. Depois, veio o sucesso e as responsabilidades aumentaram bastante. O legal é que a gente viveu aquilo tudo intensamente. Então, valeu muito a pena.

Em 1996, quando o Jota Quest lançou o primeiro álbum da carreira,você imaginava que a banda fosse chegar tão longe?
Com certeza, não. Quando se está começando, lançar um primeiro álbum, já por uma gravadora grande, era algo tão surreal, que o máximo que a gente conseguia pensar era em tentar fazero melhor possível naquele momento. Éramos muito novos em 96 e tínhamos um sonho a realizar, então, a gente se jogou de corpo e alma.

Para você, qual é o ponto fundamental que mantém o mesmo grupo por quase duas décadas?

Acho que estamos juntos, ainda, graças principalmente a este "sonho bom" do qual não queremos acordar nunca. Acabamos indo muito além do que poderíamos imaginar e é por isso que cuidamos da banda e uns dos outros, com o máximo respeito e carinho, para que possamos continuar nos divertindo, emocionando e alegrando as pessoas. Ser um "Jota Quest" é bom demais.

O que você ainda considera um desafio e qual seria ele, para a banda?

Acho que o nosso principal desafio artístico é continuar relevantes dentro da cena pop-rock brasileira. Estamos sempre em busca de algo que possa nos dar prazer e nos aproximar das pessoas. Uma banda pop precisa se conectar e se misturar com seu público. Uma nova batida, uma nova tendência, um bom refrão. Tudo é combustível para seguirmos em frente.

Qual teria sido o ponto alto da carreira do Jota Quest?

Já passamos por poucas e boas (risos). Gosto de pensar que agora está sendo a nossa melhor fase. Após as comemorações dos 15 anos, rodamos novamente o Brasil de ponta a ponta, estivemos no Rock in Rio, em duas edições consecutivas, lançamos um novo álbum de inéditas, com a participação especial do mestre da disco-groove, Mr. Nile Rodgers, e conseguimos emplacar três canções no top10 das rádios. O fato de estarmos
pessoalmente mais maduros, está nos ajudando a enxergar com mais clareza a importância e a relevância de viver tudo isso novamente, 20 anos depois. Estamos muito felizes e unidos como nunca, ou melhor, como sempre (risos).

O Jota Quest é conhecido por suas apresentações animadas. Qual a sensação, depois de quase 20 anos, ao fazer um show?
O show, para uma banda pop, é o ápice da relação com seu público. É o momento em que todos os sentidos estão em ação, ao mesmo tempo. Poucas profissões oferecem uma resposta tão imediata sobre o que se está fazendo, como isto de poder sentir a energia de uma plateia superfeliz pulando e cantando uma canção que marcou sua vida. Por isso, ao longo destes quase 20 anos, nos entregamos e nos esforçamos ao máximo para que nossas apresentações sejam inesquecíveis, para o público e para a gente, também.

A sua presença no palco também é destacada. Como vocalista, você fica à vontade ao ocupar o centro do palco. O que o palco representa para você?
Obrigaduuu. Há quem diga que o Flausino, como cantor, é um ótimo animador de plateia (risos). Olha, eu me sinto totalmente à vontade. Comecei menino, aos 12 anos, hoje tenho 42. O palco é minha vida.

O quanto a participação do público interfere na energia da banda no palco e o que é um público bom para show?
Interfere 100%. Uma plateia apática ou distraída pode destruir um espetáculo. Poucas vezes passamos por isso, mas já aconteceu. Nessas horas, conto umas piadas, imito o Silvio Santos, diminuímos o número de músicas no repertório, agradeço muito a "energia" da "galera" e tiramos o time de campo. Público bom para shows de pop-rock é aquele que não tem o menor pudor de cantar "alto", dançar loucamente, pular, chorar. A vida é muito curta para frescuras (risos).

Muitos artistas afirmam que mesmo cantando as mesmas músicas, usando o mesmo cenário, um show nunca é igual ao outro. Por quê?
Sem dúvida. A gente tem de estar preparada pra tudo neste trampo. A arte não é definitivamente uma ciência exata. Estamos lidando com emoções, sensações visuais e auditivas, ritmo, poesia, recordações. Além disso, também estamos sujeitos a não ser o centro das atenções de uma noitada, ainda que o cara tenha comprado um ingresso e saído de casa para ir a uma festa, em que, por acaso ou coincidência, a gente esteja lá tocando. Não é mole, não. Mas o desafio é instigante.

Como você define os shows do Jota Quest?
O show do Jota Quest é uma celebração à vida, uma explosão de sentimentos.

Na sua opinião, como nasce um hit?
Acho que um hit de verdade nasce naturalmente, estará misturado a várias outras canções de um disco e só se transformará em um hit eterno se alguma força maior disser que é para ser (risos). Uma canção eterna terá de vencer várias etapas, desde internamente, no caso de uma banda, até quando chegar ao ipod ou ao dial das rádios e, no meio de tantas outras, conseguir tocar o coração de alguém.

Qual música que virou hit tem uma história interessante?
90% de nossos hits nasceram por acaso, na brincadeira, e por isso acabam por terem histórias legais. Tipo, "Na Moral" foi "Gardenal" por muito tempo (risos). A letra de "Só Hoje" é, na verdade, uma carta/bilhete, que recebi da minha namorada na época, a hoje escritora Fernanda Mello, sobre eu ter sido "fofo", ao dizer para ela, ao telefone, que iria buscá-la no trabalho, mesmo estando cansado e tal. Recebi o bilhete e achei tão igualmente fofo que compus a canção logo na manhã do dia seguinte. São muitas emoções, bicho (risos).

O Jota Quest teve mudança clara na sonoridade. Começaram com a black-music, flertaram com o rock, carregam muito da soul-music, entre outras referências. Como esses gêneros são pensados, a cada trabalho?
Acho que, a cada disco, sempre partimos inicialmente rumo ao desconhecido. Depois de algumas semanas, começamos a analisar o material em busca do melhor conceito a seguir. Nem sempre estamos todos olhando para o mesmo lado, o que já nos gerou grandes dores de cabeça. Em compensação, quando entramos em sintonia, é só alegria. É natural que um grupo de cinco caras, que compõem e ouvem música o tempo todo, tenham divergências conceituais, mas é aí que está também a chave do sucesso de um trabalho coletivo. É preciso ter paciência e bastante desprendimento.

Como você define a sonoridade da banda?
Somos uma banda pop com forte acento black (funk, soul, disco, r&b) e com pitadas de rock e mpb.