O Instituto Alana é uma das principais organizações que cuidam dos direitos da criança no Brasil. Sem fins lucrativos, a ONG tem como objetivo mobilizar a sociedade para os temas da infância.

Liderada pelo pinheirense Marcos Nisti, vice-presidente do Instituto, o Alana tem projetos e atividades voltados para transformar o caminho e mudar a realidade das novas gerações. Em entrevista à Revista, o associado explica em detalhes o trabalho realizado e qual a relação da ONG com a Maria Farinha Filmes, empresa onde atua como produtor, já tendo lançado documentários como Criança, a alma do negócio e Muito além do Peso, que colocam em discussão temas da infância.

FOTO 1

 

No dia 19 de outubro, o Clube fará uma apresentação especial do documentário O Começo da Vida, que tem você como um dos produtores. Como foi esse trabalho?

Esse filme fala sobre a primeira infância. Fizemos uma pesquisa e vimos que era um assunto que, se abordado de uma maneira internacional, poderia render coisas interessantes. Durante três anos, percorremos nove países para retratar a realidade de pais, mães, filhos e avós. O filme estreou em maio, depois foi para os Estados Unidos e foi o primeiro longa brasileiro a entrar na plataforma global da Netflix. Hoje, já foi exibido em 52 países.

Você tem, também, participação na produção de outros filmes com temática infantil: Muito além do Peso, Tarja Branca - A Revolução Que Faltava e Criança, a alma do negócio. Qual a importância de abordar temas infantis no cinema?

É importante para causar reflexão e provocar transformação. O cinema coloca você em uma posição de querer mostrar as caras, os rostos, a forma das pessoas verem as realidades. Ele é capaz de transformar o mundo. Por isso, criamos uma produtora dentro do Instituo Alana, a Maria Farinha, para fazer filmes que respondem a seguinte questão: o que esse filme vai fazer para ajudar a melhorar o mundo? Para entrar na produtora, o filme tem de responder bem essa pergunta.

Como você concilia seu trabalho no cinema com o dia a dia como vice-presidente do Instituto Alana?

É um dia a dia superpuxado, pois, além de ser vicepresidente, sou o diretor operacional do Alana. Tem uma demanda grande, mas são demandas que cruzam com os trabalhos da produtora. Na Maria Farinha, tenho duas sócias que cuidam da questão da produção e distribuição. Sem elas não daria para fazer.

Você consegue resumir qual é a missão do Alana?

O Alana trabalha pela criança. Tem dois eixos muito específicos: os direitos da criança - trabalhamos na preservação destes direitos - e a questão do seu desenvolvimento. O Brasil é um dos países que tem as melhores leis de proteção à criança do mundo. A dificuldade aqui é a aplicação das leis. Temos também a questão do desenvolvimento. Trabalhamos educação do sensível: a valorização do brincar, do tempo livre, de ter a criatividade na escola.

O fato de você ser advogado ajuda nessas questões?

Sim. Sou um advogado que sempre trabalhou com comunicação. Tenho uma noção técnica, sei do que estou falando e o que me move mesmo é a comunicação. O Alana hoje trabalha com a comunicação como uma ferramenta de base e auxílio nas políticas de desenvolvimento.

Você acha que é um trabalho desafiador?

Acho que a paixão é desafiadora. Meu trabalho é apaixonante, não tem rotina, sou privilegiado de poder trabalhar por uma causa. Todos buscam isso hoje.

Como são escolhidos os projetos do Alana?

O projeto tem que ter essa história da área da educação de trazer essas ferramentas mais sensíveis, como arte, música, cultura, criatividade, o brincar. Somos uma ONG que busca um impacto bem significativo. Nossa política é provocar micromudanças sociais, para assim ir transformando uma realidade.

O Alana foi criado em 1994 e tem uma história interessante...

A família da minha esposa herdou um terreno. Quando ela foi conhecer o local, encontrou 20 mil famílias morando lá. Faz 20 anos e temos o compromisso de ficar mais 20 anos, mas desacelerando nossa presença. Nosso olhar, que já foi muito tradicional, em termos de filantropia – tínhamos creches, atendimento médico e dentário – passa a ser um olhar de empoderar a comunidade, de deixá-la em condições de que ela exija isso do poder público e não dependa tanto de organizações como a nossa. Queremos deixar essa comunidade mais capaz de conquistar as necessidades que elas demandam.

O Instituto tem data para fechar?

O Alana vai terminar em 2055. Temos uma história que é não viver para o problema, mas viver para resolver o problema. Então, temos de usar as forças, as ferramentas e o dinheiro que temos para resolvê- los. De repente, admitir que temos uma vida para sempre é admitir a nossa incapacidade. Temos um prazo para acabar, temos um prazo para resolver os problemas que nos propusemos resolver.

Você acha que no fim deste prazo os problemas terão sido resolvidos?

Sim, ou teremos adiantado bem com esse processo. Acho que o fato de termos essa urgência, coloca uma pressão saudável. Aceleramos essa agenda, provocamos essas micromudanças sociais de uma forma mais rápida.

Que tipo de transformação o trabalho faz em você?

Eu tenho duas filhas crianças e outros duas que são uma adolescente e uma adulta. As minhas filhas crianças são o olho do furacão, tenho um laboratório dentro de casa. Não existe o distanciamento de eu falar de uma história que é distante para mim. Quando a gente fala de publicidade para criança, por exemplo. Eu vejo televisão com a minha filha e, às vezes, aparece publicidade. E nós discutimos isso, vejo como aquilo age em cima dela, como minha filha pede para comprar tal produto. Tem pais que a filha pede e ele não tem condições de comprar - mais cruel ainda. A qualidade das publicidades de hoje é bem melhor do que a de dez anos atrás, por exemplo. Já tem várias empresas que não fazem publicidade para crianças, o que é uma baita evolução.

Qual é a sua relação com o Clube?

Meu dia começa aqui. Deixo minhas filhas na escola, faço musculação e vou para o trabalho. Sou um associado novo, não conheço o Clube todo ainda, mas acho que é superbem localizado e a forma de lidar com o esporte aqui é muito legal também. Eu aprendi a gostar, lutei para estar aqui. Curto o Clube. Minhas filhas também.