"Cada criança é um indivíduo muito independente e franco".

Ele é o criador do desenho infantil brasileiro mais conhecido de todos os tempos: A Turma da Mônica. O empresário e cartunista Mauricio de Sousa é responsável pelas divertidas aventuras que encantam adultos e crianças, desde 1959. Com mais de 50 anos de história, o cartoon ultrapassou as gerações e não tem quem não conheça a garota dentuça e zangada, sempre com seu coelhinho, e o garoto que fala trocando o ‘r’ pelo ‘l’.

Em entrevista à Revista Esporte Clube Pinheiros, Mauricio de Sousa fala sobre desenhos antigos e atuais e também sobre a diferença entre criar personagens hoje e quando começou a trabalhar nesse ramo. O empresário comenta, ainda, qual o segredo de manter as histórias da Turma da Mônica por tantos anos e com inúmeros fãs, que não perdem nenhuma aventura da Mônica, Cebolinha, Magali, Chico Bento e outros personagens.

Foto de Lailson dos Santos - divulgação MSP

A Turma da Mônica existe há 50 anos. Qual o segredo para um desenho animado ter sucesso há tanto tempo?
Há vários fatores a ser estudados, buscados, para explicar esse fenômeno, mas um dos pontos chave deve ser o fato de a Turma da Mônica ter pai e mãe. Explico: praticamente, a mesma equipe vem cuidando das suas histórias, do seu visual, desde há mais de 50 anos. Eu, o criador dos personagens, e mais um grupo de grandes artistas, temos tratado dos personagens como filhos, escolhendo seus caminhos nas histórias, nas aventuras, sugerindo comportamento, cuidando
de seu visual. Carinho de pais, sem dúvida. E quem ganha o carinho dos pais, da família, tende a dar certo em qualquer circunstância.

Por que a Turma da Mônica conseguiu ultrapassar gerações e agradar pais e filhos?
Como uma grande equipe de artistas colabora na criação coletiva, esses colaboradores trazem consigo toda uma vivência que se soma à experiência dos demais colaboradores. E, com isso, a turminha recebe informações de hábitos e costumes de um grupo variado, atualizado, dinâmico, que ajuda a levar ao leitor a linguagem de todas as idades.

 

Quanto a desenhos, como o Mickey, que é antigo, sobrevive até a atualidade? A que se deve essa permanência?
Na criação de um personagem entram aspectos gráficos que, bem combinados, revelam um “design” vencedor.
Depois, é manter os elementos mais notáveis de um desenho e temos um “logo” permanente. Por exemplo, as orelhas do Mickey, os dentes da Mônica, os cabelos do Cebolinha...

Qual a diferença entre criar desenhos hoje e quando o senhor começou, há 50 anos? O que mudou e o que permanece igual?
As fórmulas persistem. Com os elementos que mencionei nas questões já citadas, mudaram as ferramentas, o material usado para expor um desenho. Afinal, saímos do lápis e papel para as mais modernas técnicas digitais. Um salto, mas sempre dependendo do ato de criar.

O senhor tem leitores em todas as faixas. Como é atingir diferentes tipos de público com o mesmo desenho?

No momento, vejo que o leitor, que fala e entende o mundo como ele é, está na faixa de 15, 16 anos. Falo de jovens com escolaridade e habitantes de áreas urbanas. Em áreas afastadas, a faixa sobe alguns poucos anos.
Assim, se você consegue se comunicar com um jovem de seus 15, 16 anos, poderá ser entendido por uma criança e também alcançar a compreensão de um adulto.

O que o senhor acha dos ensinamentos e valores passados por meio dos desenhos atuais?
Não tenho resposta. Há uma vastidão de produtos diferenciados, alguns de boa qualidade, outros de qualidade duvidosa. Para se avaliar ensinamentos e valores, teríamos de fazer um estudo mais profundo.

Como os pais devem aproveitar as histórias em quadrinhos para passar ensinamento para os filhos?

Escolhendo boas histórias, de bons autores, para oferecer ou sugerir aos filhos. Sem esquecer que eles estarão fazendo suas próprias escolhas longe deles, por conta própria. Daí a necessidade da permanente orientação dos pais.

Quais cuidados o senhor tem na hora de criar um personagem ou uma história?
O personagem tem de ter uma mensagem, situar-se num contexto, que nos permita, como criadores, passar mensagens positivas e divertidas ao leitor.
Pitadas de educação e cultura têm de permear as histórias.
O que o senhor acha que as crianças de hoje achariam se assistissem a desenhos antigos, como A Caverna do Dragão ou Barbapapa?
Cada criança é um indivíduo muito independente. E franco. Se gostar, fala, se não gostar, ignora. Mas alguns trabalhos antigos mantêm características que ainda agradam e atraem a criançada.

 

E o contrário: o que o senhor acha dos desenhos que as crianças assistem hoje?
Eu, particularmente, acho que a maioria dos filmes animados produzidos hoje, para a televisão, deixa a desejar em termos de arte, de criatividade e de mensagem.

 

Os desenhos de hoje têm alguma influência dos desenhos antigos ou são criações totalmente novas, sem associação com o que era feito no passado?
Há experiências novas no ar, ou melhor, nas telinhas. E há produtos meio que retrô. Mas há espectador para todos os gêneros.