Neste mês de março, o auditório do CCR irá prestigiar uma das parcerias mais importantes da música popular brasileira. Da amizade entre o músico Toquinho e o poeta Vinicius de Moraes saíram diversos shows inesquecíveis, discos que são referências musicais e clássicos cantados por diversas gerações, como Tarde em Itapoã, A tonga da mironga do kabuletê e Regra Três. O show, que aborda a parceria e outras músicas de Vinicius, faz parte da comemoração do centenário do artista. Para falar mais sobre esse encontro musical e a apresentação no Clube, a Revista Pinheiros conversou com Toquinho. Confira.

Recentemente, a União da Ilha fez uma homenagem a Vinicius e você esteve no desfile, na Sapucaí. Qual foi a sensação?
Participar do desfile da União da Ilha foi uma das maiores emoções desses
quase 50 anos de carreira. Indescritível a energia trocada com o público, o reconhecimento,
a alegria que se alastra por toda a trajetória. É a consciência de que sou um pequeno fragmento dessa história, cuja luz principal é Vinicus de Moraes. O samba é bom, o tema é fluente e poético.

A aproximação de vocês aconteceu pela música. Ele gostou da sua forma de tocar violão? Como foi esse primeiro contato?
Vinicius ouviu um disco gravado na Itália, em homenagem a ele, e desse disco eu par ticipo solando alguns
trechos de músicas dele. Gostou tanto que me convidou para uma temporada de shows em Buenos Aires, em 1970. O telefonema dele me convidando foi surpresa total. Pensava até que fosse trote de amigos.

Em algum momento, a diferença de idade atrapalhou o encontro? Existiam mais coisas em comum do que
diferenças?

Logo percebemos que gostávamos das mesmas coisas. A cada ponto em comum, a cada canção, a cada trabalho realizado, Vinicius ia ficando mais jovem. A diferença de idade nunca foi problema. Vinicius não sabia ser velho.

O que você aprendeu com Vinicius que carrega até hoje?
Antes de tudo, o respeito pela humanidade. O artesanato da poesia, o encadeamento dos shows e a tranquilidade diante do público.

Qual a importância do Vinicius na sua vida e carreira?
Vinicius foi um marco em minha vida, tanto profissional quanto pessoal. Por incrível que pareça, ele me ensinou a respeitar horários. De cer ta forma, me colocou nos trilhos em relação a compromissos. Toda minha experiência de palco foi apurada na convivência com Vinicius.

Muitos consideram o encontro de Toquinho e Vinicius um dos mais representativos da música brasileira.
Como você vê isso?

Os muitos sucessos que perduram até hoje provam essa representatividade. É muito difícil uma parceria mantida com tanto trabalho e amizade.

Você lembra como foi receber a primeira letra para fazer a música e estabelecer efetivamente a parceria com ele?
“Como dizia o poeta...”? Mesmo em Buenos Aires, quando de nosso primeiro trabalho, eu havia deixado com ele um tema gravado. Depois de um tempo, antes de três shows que fizemos em Salvador, Vinicius me mostrou a letra dessa canção. Nós a cantamos nos shows e já percebemos que poderia virar sucesso. E deu no que deu: a primeira de tantas outras. Era um tema baseado em Albinoni, compositor do século XVII.

Desse encontro, saíram clássicos cantados até hoje, como Tarde em Itapoã, A tonga da mironga..., Mais um adeus. Por que essas músicas são sucesso até hoje?
Porque são canções que agradam por sua melodia simples e por sua poesia adequada, mas a gente nunca
sabe o que vai ser sucesso.

Na sua opinião, qual música representa melhor o encontro de vocês e por quê?
Talvez seja Tarde em Itapoã. Porque foi depois dela que Vinicius passou a ter mais confiança em mim como parceiro. É um poema perfeito, cuja melodia não alterou uma vírgula de sua composição. Casamento ideal entre letra e música.

Você dividiu o palco e o estúdio com Vinicius. Como eram esses encontros profissionais?
Houve sempre uma troca saudável de experiências. Ele, se reforçando com meu entusiasmo e juventude. E eu, sugando toda vivência e sabedoria de um mestre com amor à vida e à sua poesia.

No palco, vocês costumavam convidar uma voz feminina, como Clara Nunes, Maria Bethania, Miucha. No Pinheiros, você se apresentará com a cantora Anna Setton. O que você acha que uma voz feminina traz de especial para o show?
Sempre estivemos acompanhados de ótimas cantoras. E eu continuo mantendo esse comportamento. Anna Setton é excelente intérprete e esbanja simplicidade e graça, condições tão necessárias para a complementação de um espetáculo e que só a mulher é capaz de transmitir.

Não é a primeira vez que você faz uma homenagem ao seu amigo e parceiro Vinicius. Hoje, prestes a comemorar o centenário do Poeta, como é reviver esse encontro?
Vinicius está sempre presente nos meus trabalhos. Em todos os shows, comemoro a continuidade de Vinicius, que se iniciou em minha vida desde nossa primeira canção.