Março é o mês da mulher e, pensando na data, a Revista Esporte Clube Pinheiros conversou com Ana Mesquita, nadadora associada que bateu o recorde latino-americano feminino da travessia do Canal da Mancha, em 1993. Ela conta os desafios da empreitada.

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“É MUITO BOM VER COMO AS PESSOAS SE INSPIRAM NA MINHA HISTÓRIA”

 

Das piscinas do Pinheiros para o mundo. Mais especificamente: o Canal da Mancha. Ana Mesquita, nadadora associada, foi a 5ª atleta dos 13 brasileiros que concluíram o percurso Inglaterra-França, a nado. Em 1993, a nadadora bateu o recorde latino-americano feminino da travessia, tornando-se a 3ª mulher do País a realizar o feito. Mas nem só de recordes é feita uma conquista como essa. Em entrevista à Revista Esporte Clube Pinheiros, ela vai além dos números: revela os desafios e os bastidores da empreitada e conta como a experiência mudou sua vida. Além disso, fala sobre sua relação com o Clube, que ela considera uma segunda casa.

Como surgiu a ideia de atravessar o Canal da Mancha?
A ideia nasceu quando eu nadava no interior. O meu técnico tinha sido o treinador da primeira nadadora brasileira que atravessou o Canal da Mancha, a paraibana Key France. Então, ele contava a história dela para a gente, como ela era obstinada, como treinava no mar e que tinha esse sonho. Uma história bacana. Ele achava que eu tinha bastante resistência e me perguntava:
‘Mas por que você não atravessa também’.
Eu o achava um louco varrido, mas a ideia foi plantada ali e ficou dormindo até tempos depois, quando já morava aqui em São Paulo.

Quando acha que a ideia acordou?
No meio de uma crise existencial, que teve a ver com a morte do meu irmão e comigo querendo fazer outra faculdade, quando já estava no terceiro ano. Tudo isso me fez voltar a pensar na natação, ter vontade de atravessar o Canal da Mancha e resgatar o meu sonho. Isso, somado ao fato de que sou associada do Pinheiros e vinha sempre aqui nadar. Então, comecei a treinar com o pessoal do Triatlo e me vi nadando melhor do que na época em que eu nadava no interior.

O que essa travessia representa para você?
Ela vai além do número e do recorde. Ela representa algo para me fazer lembrar que a gente é capaz de muito mais do que aquilo que imaginamos. Algo para não perder de vista que, às vezes, a gente se diminui um pouco, não tem a exata noção de tudo o que pode fazer. Essa marca foi uma surpresa para mim. Quando eu comecei a treinar para o Canal da Mancha, o desafio era só o Canal, eu não pensava em recorde, muito menos em um recorde latino-americano, que durasse 20 anos. Era inimaginável. No início, o grande desafio era que eu nem achava que eu pudesse me colocar. E, naquela época, eu não me colocaria como desafio, por exemplo, participar de provas do Campeonato Mundial, porque aí tem tempo limite, você precisa estar ranqueado etc.

Você acha que a autoconfiança é uma das suas conquistas com a empreitada?

Acho que tem um fato de autoconfiança, de se dar chance. Eu acho que o fato de ser mulher e atleta, não necessariamente nadadora, faz, sim, uma diferença, porque a gente sabe que, embora hoje seja muito comum e normal as mulheres praticarem esporte, durante muito tempo o esporte era algo só para homens. Acho que a gente ainda tem muito para caminhar nisso, como humanidade e como sociedade, e acredito que um fato que contribui é as mulheres praticando esporte.

Quando você estava lá, no percurso, qual o pior desafio: o físico ou o psicológico?
Você, sem dúvida nenhuma, precisa estar bem preparada fisicamente. Mas eu acho que o desafio psicológico é mais difícil, principalmente por causa do frio. Com o passar das horas fica bem frio e você nunca deixa de sentir frio. Mas eu acho que o medo é uma grande dificuldade para o emocional, enfrentar o seu medo, saber até onde se pode ir. Quando eu fiz a minha primeira tentativa de travessia – foram duas tentativas, na primeira eu não consegui, em 1992, e a segunda, que eu consegui, em 1993 – fazia três anos que a Renata Agondi tinha morrido lá.
Tinha sido uma comoção nacional, uma história muito triste de uma grande nadadora, uma tremenda nadadora, que morreu de hipotermia no Canal da Mancha. E é um risco real.

Como é voltar para o mesmo lugar, no qual você não conseguiu vencer na primeira vez?
Aí tem de enfrentar o fantasma da frustração, do fracasso. Em uma sociedade que enfatiza tanto o sucesso, você lidar com o fracasso é algo difícil. Eu acho que é importante dizer que eu fui para o Canal uma vez, tentei e não consegui. Doeu? Foi difícil? Foi. Mas eu subi no barco, fiquei viva e tive a oportunidade de tentar de novo. Talvez, se eu tivesse continuado, eu tivesse morrido. Mas, de qualquer jeito, eu acho que vale a pena a gente pensar que fracassar não é a morte. Às vezes, até se sente como uma espécie de morte, mas fracassar significa que você tentou e, mais, geralmente, você pode tentar de novo, se você tiver a coragem de enfrentar esse fantasma.

Como é saber que você é a terceira brasileira que conseguiu realizar esse feito?
Na verdade, acho que isso não é muito importante. Não é um grande definidor na minha vida. Eu certamente não acho que atravessar o Canal, com ou sem recorde ou qualquer outro desafio, necessariamente faz de você uma pessoa melhor. Você pode até, nesse processo, conseguir tirar alguma coisa disso, que seja um crescimento. Mas não é imediato, não é instantâneo, você não fica melhor do que ninguém, porque você atravessou o Canal ou bateu um recorde. Ninguém fica melhor do que ninguém por algo assim.

Qual é a sensação de terminar?
É uma delícia! Terminar é sensacional. Essa sensação de perseguir um objetivo com uma dedicação enorme, durante dois anos inteiros, se dedicando principalmente a isso, e aí na hora em que você vê que realmente chegou lá, que você está na França, é sensacional.

Podemos considerar você uma campeã. Você tem algum segredo para conquistar esse objetivo? Como levar isso para o dia a dia?
Acho que se dedicar e saber que quando você escolhe uma coisa, geralmente você tem de abrir mão de outra. E isso não é só no esporte, é em tudo. Quando você faz uma escolha, tem de abrir mão de outras coisas. Ter noção de que, se você escolhe e acha que vale a pena, então é ir fundo e se dedicar.

Repercussão. O que muda depois de uma conquista, existe uma valorização?

No meu caso, virou uma boa história para contar, é divertido. Eu escrevi um livro compartilhando essa história. A princípio, escrevi para a minha filha e aí foi publicado. É muito bom ver como as pessoas se inspiram na minha história, não necessariamente atletas. Inspirar alguém, de alguma forma, faz você sentir que valeu a pena.

Quais são os próximos passos depois de bater esse recorde?
De vez em quando, eu até tenho vontade de voltar a treinar e fazer alguma coisa, mas hoje em dia eu nado pouco, sou fotógrafa. A natação é uma coisa assim para sobrevivência, para estar bem física e emocionalmente. Faz muito bem e não só para o corpo. Quando estou aborrecida com alguma coisa, eu caio na piscina e saio outra pessoa, me faz um bem danado.

Você acha que a natação deu o que tinha que dar ou existe um arrependimento de não ter seguido profissionalmente?
A história foi como foi. Para eu ter feito natação profissionalmente, a história teria que ter sido todinha diferente. Talvez, eu pudesse ter sido uma nadadora profissional, mas eu não sei se eu teria sido uma grande nadadora.

Qual é a sua relação com o Pinheiros? O que ele representa para você?
Frequento muito as piscinas e tenho uma identificação grande hoje em dia com o Clube. Eu sinto como se fosse meio que uma casa minha. Se estou andando na rua, ou em outro lugar, e vejo alguém com o uniforme do Pinheiros, eu logo penso ‘olha aí, um irmão’. Essa coisa de identidade de pertencer, eu tenho isso. E me pergunto como isso nasce dentro da gente, mas eu sinto, sim, essa identificação com ser do Pinheiros, com o Clube em si. Eu acho que a gente é muito privilegiada por poder frequentar o Pinheiros.

EDUARDO COUSO JÚNIOR TRABALHO, ARTE E LAZER PARA TER SUCESSO

ECP Comunicacao 2014 2

Andar pelas alamedas do Clube é garantia de boas histórias. Em um corpo associativo, que conta com mais de 38 mil associados, encontrar verdadeiros casos de sucesso já nem causa tanta surpresa. Este mês, a Revista Pinheiros apresenta o engenheiro Eduardo Couso Jr.. Com mais de 10 mil projetos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, o pinheirense é considerado um revolucionário, especialmente em fundações. Entre as principais obras assinadas por sua empresa, estão: MASP, Edifício Itália, Rodovia dos Imigrantes e Shopping Cidade Jardim. Conheça um pouco mais de sua história e descubra como o lazer e a arte podem auxiliar uma grande carreira profissional.

Qual o seu perfil de engenheiro?
Não sou um profissional de ficar dentro de um escritório fechado. Eu projeto, mas vou ver a construção. Quando estava fazendo a Imigrantes, eu ia acompanhar a execução, punha gente nossa lá e supervisionava tudo. Com o Pinheiros não foi diferente: projetei e todo dia vinha um engenheiro acompanhar a execução.

O senhor consegue levar essa disciplina para a vida pessoal?
Eu não sei o que é a extensão do quê. Se a minha vida pessoal é a extensão da minha vida profissional ou vice-versa. Elas se misturam. Sou uma pessoa cartesiana, que gosta das coisas certas, de tudo no seu lugar, na sua sequência. Então, isso faz parte da minha personalidade. E com essa postura, eu consegui ter um sucesso bastante significativo dentro da área da engenharia e na vida pessoal também. Meu filho, hoje, é dono de uma das grandes construtoras de São Paulo e a minha filha é uma arquiteta de sucesso.

Nessas conquistas, qual a importância do lazer?
Você precisa ter, em todos os momentos de sua vida, paz de espírito. E o Pinheiros abriu uma porta para isso você pode se desligar de todas as suas preocupações. Se você for uma pessoa estressada, não pode transmitir isso ao seu cliente e aí o Clube surge para abastecer as pessoas de tranquilidade.

E profissionalmente, em qual momento o senhor se sente satisfeito?
Como engenheiro, quando vejo um empreendimento concluído, só de saber que tenho um dedinho lá, que tenho participação naquilo, seja em um hospital, um shopping ou um prédio residencial, me emociona muito.

Como é andar por São Paulo e ver várias obras com a sua participação?
É uma satisfação saber que você foi útil para a sociedade. Todo mundo deveria fazer um pouco isso, cada um no seu setor, cada um na sua área, cada um na sua atividade. Cada um tem que dar o seu quinhão de contribuição para que o conjunto melhore. O Pinheiros, para mim, tem um ar todo especial, primeiro, porque eu me sinto bem aqui, tenho grandes amigos e fico feliz em olhar as obras que eu fiz. Outro dia, eu estava andando por aqui e vi que fizeram um elevador e uma escada e eu me lembrei de quando eu estava fazendo o projeto e indiquei as pessoas para a execução. Mesmo que seja um trabalho pequeno, já que tenho projetos de prédios de muitos andares, me dá tanta satisfação fazer um quanto outro.

O nome da sua empresa é mais conhecido do que o seu. De alguma forma o senhor se sente injustiçado?
Não, eu nunca procurei destaque pessoal. O principal culpado disso sou eu mesmo.
O senhor tem uma carreira de 60 anos. Como o senhor define esse sucesso?
Nós temos um lema na Consultrix, que se baseia em três pilares: ética, competência e criatividade. Com isso, inovamos e fazemos um mix de soluções para apresentar à pessoa que nos procura, precisando de algum projeto.

O senhor disse que foi procurar a área de cálculos, mas se mostra um apaixonado pelas artes. Como se deu isso?
Sempre gostei de música e visitava museus. Um dia, fui ao Theatro Municipal assistir a um concerto de piano. A moça que estava tocando era jovem, com umas tranças longas. Aí, um dia, me matriculei em uma escola de inglês e quem senta ao meu lado? Aquela moça que estava tocando o piano. Casei com ela. Fizemos, em 2013, 50 anos de casados. Foi ela que introduziu a arte na minha vida. Eu já gostava, mas ela deu um improvement e até hoje nós curtimos muito a arte. Então, é algo paralelo, mas que também me dá satisfação. Foi assim que tive meu ‘banho de arte’.