“QUIS ETERNIZAR AS BELAS IMAGENS DO CLUBE EM UMA OBRA DE ARTE.”

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As descobertas do tesouro artístico pinheirense continuam. Este mês, a Revista sugere uma visita ao quadro Pinheiros da Nossa Saudade, exposto na Sede Social, do artista Alfredo Zanussi. O associado, que confeccionou o painel, por encomenda do Presidente da época, em abril de 1997, fez uma extensa pesquisa no Centro Pró-Memória Hans Nobiling para recuperar a paisagem do Clube nos anos 20 e 30.
A proposta era enriquecer o acervo pinheirense com uma imagem que retratasse o Clube de um ponto de vista diferente dos existentes, como se o artista se posicionasse do lado oposto ao rio Pinheiros, onde hoje está localizado o Jockey Club de São Paulo. Sua fonte não se restringiu só à iconografia disponível, mas também à memória oral e aos depoimentos dos que viveram o período.
Mais conhecido como Alemão, devido aos cabelos loiros da juventude, o arquiteto e artista plástico contou, em entrevista à Revista, os bastidores da pesquisa para compor o Pinheiros da Nossa Saudade, além de revelar as curiosidades dessa pintura que é um verdadeiro retrato visual e histórico do Clube.

Como surgiu a ideia de pintar o quadro Pinheiros da Nossa Saudade?
A ideia deve ser creditada ao meu companheiro de Futebol e grande amigo, Arlindo Virgílio Machado Moura, que foi Presidente do Clube. Ele veio me dizer que não havia, no Pinheiros, nenhuma obra de arte que representasse o Clube. Então, começamos a conversar sobre isso e fomos ficando cada vez mais envolvidos, mas sem saber por onde começar. Quis eternizar as belas imagens do Clube em uma obra de arte.

Como foi a pesquisa para a pintura?
Inicialmente, pensamos em colocar, em um painel, os esportes praticados no Clube. Então, tive a ideia de ir ao Centro Pró-Memória. E lá o pessoal tinha fotografias de épocas bem antigas do Clube, que ajudariam a compor uma pintura, e disponibilizaram o material. Aí me veio um estalo e consegui montar a paisagem, a partir das fotos.

Por que recuperar as imagens dos anos 20 e 30 para fazer o quadro?
Na verdade, não escolhi por data. Dessas imagens, selecionei várias que eu achava que tinham ligação. Naquela época, tinha o Clube na cidade, que era social, e esse espaço aqui (onde é hoje o Pinheiros) era como se fosse um sítio. O rio Pinheiros não era retificado nem poluído e algumas fotografias mostravam como eram as piscinas, que retratei como as fotografias me permitiram, copiando e inventando. No meio da história, eu vi que dava para montar uma paisagem juntando elementos. Então, para você imaginar o que seria a visão: é como se hoje pegássemos um helicóptero, subíssemos a uma certa altura e olhássemos para cá. Dava para ver o Pinheiros como ele era.

Coisas surpreendentes devem ter acontecido no processo... Sim. Lembro de um senhor que morava em cima do meu apartamento, na Av. Brigadeiro Faria Lima. Antes de levarem o quadro para o Clube, fui chamar esse vizinho para ver como tinha ficado a pintura. Quando ele entrou no apartamento, quase teve um chilique (risos). Porque ele viu, no quadro, a mesma paisagem que costumava ver de verdade. E eu pensei: ‘bom, pelo menos realista está, não é?’ (risos).

Antes mesmo de expor o painel o senhor já recebeu elogios?
Aconteceu um fato engraçadíssimo que me deixou muito contente, antes da inauguração. Tinha uma arquiteta do Clube me ajudando a montar, colocar a moldura no quadro. E aí, quando nós estávamos tirando o papel bolha, apareceu uma mulher de cadeira de rodas, com uma enfermeira, no corredor da Sala dos Veteranos. Ela bateu os olhos no quadro, chamou a enfermeira e disse: ‘sabe o que é isso? Foi aqui que comecei a namorar o meu
marido, era um restaurante’. Ela viu a imagem do prédio, se lembrou, e começou a contar sobre o namoro dela. Isso me ajudou a ficar tranquilo para a inauguração, à noite. Veio muita gente, era espantoso.

Como o senhor avalia o resultado final do quadro, tendo em vista a ideia inicial?
Foram surgindo, neste papo, mil dessas confusões. Então, nós fizemos um pacto, eu e o Arlindo, de, depois de 10 ou 15 anos, explicarmos todos esses detalhes que iam surgindo. A cor do barquinho, a bandeira, um monte de pequenos detalhes. Ficou como se a gente tivesse, num determinado período que não existe, vendo o Clube como ele poderia ter sido em algumas épocas. Portanto, sem retificação, só com a Casa de Barcos, vislumbrando, meio ao longe, como se fosse um campo de futebol. Tinha uma figueira que pendia para o rio e servia de trampolim - as pessoas subiam nessa árvore e se atiravam na água.

Como foi para o senhor ver a obra depois de pronta, instalada no Clube?
Foi um negócio espetacular, tenho tudo documentado. E aí tem um fato engraçado. Havia um crítico de arte, associado do Pinheiros, que colocou uns bilhetes no meu bolso. E quando já estava em casa é que fui ler o que ele tinha escrito: eram só elogios. Ele colocou termos comuns de crítico, mas ele achou fantástica essa fantasia em cima de uma realidade. Não dizendo que fosse uma cópia fiel, o que era impossível, porque eu nem era nascido nos anos 20 e 30, mas ele achou que retratou o que se fala e o espírito da época.

O senhor é arquiteto de formação. Quando começou a se interessar por artes plásticas?
Desde criança. Eu faço exposições de arte, sou aquarelista, moro em Paraty.
Eu me formei em 1961, mas pinto há muito mais tempo. Estou sempre envolvido com pinturas, encomendas. Agora sou artista plástico e de vez em quando tenho recaídas em arquitetura, mas não tenho mais escritório. Fui diretor de projeto na Universidade de São Paulo, fiz muitas obras na USP. Fiz o Ginásio Poliesportivo do Ibirapuera, a Pista do Velódromo, o Velódromo.
De arquitetura, fiz um monte de coisas, mas chegou a um ponto em que tinha virado um dirigente e não era mais um profissional de arquitetura. Como eu já tinha essa tendência para a pintura, fui uma época morar em Santa Catarina e aí comecei a pintar. Montei um monte de quadros, vim para cá e fiz exposições. De lá para cá, não parei mais.

Qual era a temática dos quadros?
No começo, fazia uma confusão incrível. Porque não conseguia me limitar a fazer um tipo de coisa. Acho que guardei isso por muito tempo e aí fazia quadros muito diversos. Uma vez eu fiz 90 quadros para uma exposição numa galeria e não sabia como montar.
Tinha aquarela, colagem, temas abstratos, tinha de tudo. Estava tudo acumulado.

Qual a sua relação com o Clube? Praticou algum esporte?
Joguei na seleção infantil do Tênis. Depois, teve, em São Paulo, o I Campeonato Colegial de Futebol, que passou na televisão em 1954/55. E nós fomos à final com o São Luiz. Dante Alighieri X São Luiz. Nós perdemos a final, mas a maioria do São Luiz e alguns do Dante Alighieri vieram jogar no juvenil do Pinheiros, que era onde hoje é a Sede Social. Em 1957, fui para a seleção do Clube e só sai em 1978. Desde que começaram os Campeonatos Internos, disputei 17 e ganhei 13.

Agora, qual a sua relação com o Pinheiros?
Hoje, uma ou duas vezes por semana, eu almoço ou janto no Clube e, nos fins de semana, venho tomar um aperitivo.