419A7976

Ajudar o próximo é o principal objetivo de ONGs e projetos de assistência social, que contam com voluntários para dar apoio às instituições de caridade. Esse é o caso de Giuliano Rossini e Thiago Vidal, pinheirenses que fazem a diferença na vida de várias pessoas. Eles dão vida ao Projeto Aprender, criado em 2004, pela Escola Pueri Domus, para atender jovens e adultos que querem voltar a estudar.

Desde muito novos, os amigos decidiram participar da iniciativa e fazer parte do sonho dessas pessoas de ter acesso à educação. Hoje, o Projeto conta com mais de 40 alunos, nas unidades Itaim e Verbo Divino, e dá chance para que jovens e adultos voltem às salas de aula. Giuliano e Thiago contam, em entrevista à Revista Esporte Clube Pinheiros, as conquistas e os desafios do trabalho voluntário que realizam. Além disso, falam de como o Projeto mudou a vida deles e da importância de ajudar o próximo.

Como surgiu a ideia de criar o Projeto Aprender?

Giuliano: Esse Projeto surgiu em 2004, no Pueri Domus, e foi uma iniciativa de alunos do Ensino Médio que queriam fazer um projeto social para a comunidade. Eles fizeram uma pesquisa na região e chegaram à conclusão que faltava um curso de educação de adultos. O Projeto começou com funcionários terceirizados do Pueri e, no ano seguinte, foi aberto à comunidade.
Hoje, temos 37 alunos na unidade do Itaim e oito alunos na Verbo Divino.

Vocês estão no Projeto desde o início?

Giuliano: Eu entrei um ano depois que tinha começado, como aluno da escola, e, por causa do Projeto, fui para a área da educação fazer Pedagogia. Acabei assumindo a coordenação, como voluntário, também, e, até hoje, estou à frente, coordenando.
Thiago: Entrei em 2011. Sou professor voluntário, comecei nas turmas de alfabetização. Já passei por várias turmas diferentes.

O voluntariado também serve de apoio profissional para vocês?

Giuliano: É uma realização pessoal, mais do que profissional. É que, para mim, as duas coisas se juntaram, mas para a maioria dos voluntários é um momento que, justamente por não ser profissional, é tão valorizado. Mas, apesar de eu dar aulas e trabalhar na escola já há alguns anos, o Projeto ainda é o que alimenta a minha alma, no qual eu acredito 100% e que faz o meu olho brilhar.

Quais são as principais vitórias?

Giuliano: Cada ano, a gente vinha com uma vitória nova. Estamos lá por um ideal, então não existe um limite, um lugar para chegar. O nosso lugar para chegar é um mundo justo que não precise ter o Projeto. Então, todo ano a gente vai estabelecendo novas metas, para sempre oferecer mais, tanto para o voluntário quanto para o aluno. Mas, acho que um marco aconteceu no ano passado, quando abrimos um curso para o ensino médio, com professores da escola voluntários. A turma, que teve a educação básica com os alunos voluntários, agora está tendo uma formação complementar com os professores e este ano eles prestam o ENEM.

Que batalha ainda precisa ser vencida?

Thiago: Acho que uma barreira muito difícil de superar é a motivação de alguns alunos. É inevitável que alguns tenham mais dificuldade do que outros, que demorem dois ou três anos para aprender algo que alguém aprende em um ano, porque a vida de cada um deles é muito diferente. Com tanto sofrimento e depois de 40 anos tentando estudar sem conseguir, eles voltarem para a escola é muito difícil.
É mais confortável, às vezes, eles falarem que querem desistir e que não são capazes, do que ficar insistindo em aprender.

“Eu tinha uma angústia que todo mundo tem no começo: a gente quer ajudar e não sabe como nem onde. A escola me deu essa oportunidade” Giuliano Rossini

O que vocês já aprenderam com os alunos do Projeto?
Giuliano: Esse exemplo de vida é o mais forte, mas também existem situações cotidianas que nos fazem aprender com eles. Uma vez, eu fui dar uma aula sobre o nordeste e lemos o Morte Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. No meio da história, apareciam várias plantas e pássaros que eu desconhecia, mas eles conheciam bem, porque a maioria veio do nordeste. Foi uma aula que, de conteúdo mesmo, eu aprendi mais com eles do que eles comigo.

Vocês têm episódios significativos de vivência no Projeto?
Giuliano: Teve uma aula que me marcou muito. Nesse projeto, ainda do nordeste, nós fomos fazer um trabalho sobre os retirantes. Pegamos o quadro do Cândido Portinari e, por meio da releitura da imagem, os alunos começaram a trazer os relatos de vida deles. Eles se identificaram com aquela imagem e começaram a contar como cada um veio para São Paulo.
E esse dia foi surpreendente, porque, primeiro, são histórias que eu nunca imaginava existir, mesmo estando com essa classe há mais de um ano, de sofrimento e de dor. Teve uma pessoa que chegou a São Paulo e ficou na Rodoviária por dois dias, sem comida e sem dinheiro, porque ela não sabia como chegar ao endereço que tinham dado para ela. Até alguém parar para ajudar.

Thiago: A primeira vez que as alunas foram ao teatro, no começo do Projeto, a reação delas era de estarem em um lugar a que não pertenciam. Entravam mudas, saíam caladas. Não conseguiam
entender muito do que estava acontecendo. Hoje em dia, você leva essas mesmas alunas ao teatro e elas comentam, interpretam a peça, dão risada, sabem o que estão fazendo lá.

Vocês são tão jovens. Como é já ter ajudado tanta gente?
Thiago: O Projeto realmente me transformou. Quando eu entrei, ainda era aluno do Pueri Domus. Minha primeira dificuldade era: de manhã sou aluno e de noite sou professor. Antes de me preocupar com o que eu ia dar em aula, eu me preocupava com qual seria a minha postura. Se eu ia ser criança como eu era, se eu tinha de parecer adulto, se precisava ser descontraído.
Então, acho que isso foi me transformando.
Com o passar do tempo, eu fui vendo quão difícil e importante é ser professor.

Giuliano: Para mim, o Projeto foi um marco na minha vida. Também entrei como aluno e sempre fui interessado em projetos sociais, mas eu tinha uma angústia que todo mundo tem no começo:
a gente quer ajudar e não sabe como nem onde. A escola me deu essa oportunidade. Eu era um aluno muito envolvido com tudo o que estava acontecendo na escola, então quis fazer parte disso também. A minha primeira aula foi transformadora. Eram oito adultos me ouvindo e deu aquele
frio na barriga. Eu saí daquela aula e pensei: ‘meu mundo agora é outro’.

Como vocês dividem o tempo? A vida de jovem e o trabalho.
Giuliano: Vai do grau de envolvimento com esse compromisso. A gente sabe que é importante, que tem de ser feito, então a gente vai lá e faz. Não considero o Aprender um trabalho na minha vida, é um prazer estar lá. Eu acho que a gente acaba construindo um vínculo tão forte que quem está lá acredita no mesmo mundo que você.

Qual é a sua relação com o Clube?
Thiago: Meu lugar preferido é a Lanchonete do Tênis, porque eu venho jogar Tênis seis dias por semana. Já joguei Vôlei e Futebol. Moro aqui perto, então, o Clube é a esquina da minha casa.
Giuliano: O Clube é a minha válvula de escape, para recarregar as energias. Venho menos do que eu gostaria, mas, sempre que eu estou aqui, a sensação é de paz, de recarregar a bateria mesmo, para recarregar tudo. Acho que aqui é a minha fuga quase que espiritual.