"DEPOIS QUE PAREI DE USAR O CARRO PARA IR A TODOS
OS LUGARES, CONHEÇO E CONVIVO MELHOR COM A CIDADE"

entrevista Em uma pesquisa rápida pelo internet, é possível encontrar o nome do jornalista e escritor Leão Serva relacionado aos mais diversos assuntos. Com passagem pelos principais jornais impressos do País e tendo feito cobertura de guerra, o pinheirense virou uma referência dentro e fora da profissão. Na literatura, Serva, que já ganhou o prêmio Jabuti, tem diversos livros lançados, com destaque para "Como Viver em São Paulo sem Carro", trabalho que aborda a relação dos paulistanos que têm mudado seus hábitos de locomoção para fugir dos grande congestionamentos.
Frequentador assíduo do Clube, Serva recebeu a equipe da Revista Pinheiros para um papo sobre carreira, sucesso, esporte e, claro, mobilidade urbana. Confira.

O senhor já trabalhou em veículos importantes, como a Folha de S.Paulo, Notícias Populares e Diário de S. Paulo. O que tirou dessa vasta experiência profissional?
O jornalista Cláudio Abramo dizia que a inexperiência é o único mal que não piora com a idade.
Ganhei experiência e, à medida que os anos foram passando, fui melhorando alguns aspectos. Principalmente, quando comecei minha carreira profissional. Eu era
muito voluntarista e acho que hoje sou mais ponderado. Vi muitas coisas que me ajudaram a ponderar, não existe tanto preto ou branco.

Existem gradações de cinza.Ter começado na Folha de S. Paulo foi fundamental para a sua carreira?
Acho que eu ter começado na Folha de S. Paulo, como diria o presidente Lula, foi um bilhete premiado na loteria.
Foi um momento muito especial do Jornal e para mim foi ótimo. Foi meu primeiro trabalho, como jornalista formado, e a Folha vivia uma mudança muito radical, uma espécie de pequena revolução no fazer do jornalismo.

O Brasil tinha acabado de virar um país democrático e foi em plena transição para a Democracia.Os outros trabalhos também marcaram?
O Notícias Populares era um jornal de venda em banca, então popular, propriamente.
A temática era bem diferente. Depois, fui correspondente de guerra e acho que, até hoje, entendo essa experiência como a mais interessante e mais intensa que eu já tive, profissionalmente.

Por que cobrir guerra é tão fascinante?
Porque ela é como uma final de Copa do Mundo. Você tem pouca chance de errar, tem de tomar decisões rápidas, ainda que erradas. É melhor tomar uma decisão errada rapidamente, do que uma decisão certa, lentamente. Então, é quando você tem de estar com todos os sentidos bem azeitados e a técnica jornalística você tem de aprimorar.

Como foi o processo do jornalista para o escritor?
Meus livros até hoje são de não ficção. É um pouco uma decorrência, pois são livros de reportagem ou de reflexão sobre o jornalismo. Acho que algumas reportagens merecem ou precisam de mais espaço. Meu primeiro livro foi baseado em uma reportagem que fiz na Iugoslávia. Meu segundo livro foi baseado em outra reportagem que fiz lá também. O terceiro livro é uma reflexão sobre a cobertura de guerra. Então, são sempre livros que, de alguma forma, trabalham o jornalismo de texto mais longo.

O senhor se considera um profissional de sucesso?
Eu considero que tenho muita satisfação pessoal, na minha vida familiar.
Não sei se isso é sucesso, mas tenho muita satisfação de ver que tenho filhos saudáveis, uma esposa que me faz feliz e que eu a faço feliz. Esses aspectos, para mim, são muito importantes. Os sucessos profissionais que eu tive ou tenho, são todos efêmeros.

Como surgiu a ideia de escrever o livro "Como Viver Sem Carro em São Paulo"?
A ideia surgiu de um engenheiro e consultor chamado Alexandre Lafer Frankel, que é o coautor e idealizador do livro. Ele, em algum momento, se deu conta de que fazia dez anos que ele não guiava. Ele toca obras, trabalha, tem filhos pequenos.
Tem uma vida absolutamente normal e intensa na cidade de São Paulo e não guiava.
Na virada de 2010-2011, o trânsito pareceu pior do que nunca e de fato estava. Naquela altura, ele soube que eu fazia uma série de reportagens sobre mobilidade urbana, me procurou e juntos idealizamos esse livro, que tem como intenção mobilizar pessoas.

Tem algumas entrevistas do livro que o senhor poderia destacar?
Chama a atenção, a história do jornalista Matthew Shirts, que escreve uma crônica quinzenal na Veja São Paulo.
Ele disse que estava neurótico no trânsito. Um dia, bateram no retrovisor do carro dele e ele estava realmente estressado. Então, decidiu parar de usar o carro e a vida ficou maravilhosa, a partir desse momento. Eu gostei desse relato, me abriu muito os olhos.

Qual é a sua relação com o carro hoje?

Ando de carro de manhã. Tenho um filho em uma escola longe da minha casa e eu o levo à escola cedo, depois venho ao Pinheiros e faço exercícios aqui. Quando volto para casa, deixo o carro e o resto do dia não o utilizo mais. Eventualmente, à noite, quando
tem algum compromisso, eu vou de carro também. Reduzi muito, vendi um dos carros que eu tinha, porque não precisava mais dele.
E estou bem feliz com isso. Depois que parei de usar o carro para ir a todos os lugares, conheço e convivo melhor com a cidade.

O que o senhor acha do transporte público?
Existe uma frase que as pessoas falam muito que é "se o transporte público fosse bom, eu andaria". Acho isso uma hipocrisia, porque o transporte público é muito melhor do que as pessoas pensam. Eu me sirvo dele todos os dias ou quase todos os dias,
porque trabalho muito perto de casa e ando muito a pé. E o transporte público, fora da hora do rush, é excelente.

Qual é a sua relação com o esporte?

Eu fui trabalhar no Lance! como editor, como administrador de empresa jornalística. Já era diretor de redação há algum tempo, tinha sido secretário de redação na Folha de S. Paulo e diretor do Jornal da Tarde.
E aí o fundador do jornal ia montar uma redação em São Paulo e me chamou. Mas eu era aquele cara que não entendia muito de esportes.
Eu sou um torcedor, torço pelo Santos, acompanhei a parte final da carreira do Pelé. Minha relação com o futebol é essa, de torcedor, não entendo muito.

Depois, fui dirigir a Placar, o que para mim foi uma realização muito grande, porque foi uma revista da minha infância e adolescência. Foi uma grande realização trabalhar nessas duas publicações de futebol.
Falando em esportes, em que momento o Clube entra na sua vida?
A minha família materna era dona de uma grande quadra, perto da Rua Artur Ramos.
Em algum momento, meu pai construiu uma casa dentro daquele terreno e eu passei a minha adolescência toda ali, a uma quadra do Clube. Então, durante esse tempo, virei associado do Clube.

Hoje, o senhor vem regularmente ao Clube?

Eu venho todo dia ao Pinheiros. Durante a semana, faço treino de corrida, alternado com musculação. Faço na Academia, na Pista de Atletismo, ou correndo em volta do Clube. E vou muito a Sauna também.
Eu almoço frequentemente no Clube. E sempre quis vir mais à noite, mas venho pouco, porque moro longe. Venho de manhã e essa é a minha rotina.
Tenho amigos de infância e de maturidade que são associados. Convivo bastante com pessoas do Clube. Meu sogro e minha sogra são associados a vida toda, vêm todos os fins de semana. Então, tenho uma relação forte com o Clube.

Qual é a importância do Pinheiros dentro de São Paulo?

Acho que o Pinheiros tem várias importâncias. Uma delas é a área verde, que comporta milhares de passarinhos. Ele tem uma área verde bonita, cria um pulmão dentro dessa parte da cidade que, antigamente, era um jardim e que está cada vez está mais adensada.
Acho que ele também é importante para o esporte brasileiro.
Convivi aqui com o maior recordista de Salto Triplo da história do Brasil, o João do Pulo. Vejo o time de Basquete e de Vôlei cheio de estrelas.
O Clube é uma referência.
A natação brasileira deve ao Clube 90% de sua história.
Joguei Handebol aqui, fui vice-campeão paulista pelo Pinheiros e fui goleiro.
Meu filho, hoje, compete pelo Handebol. Acho que o Clube tem uma importância muito grande para o esporte brasileiro.