rodrigobocardidivreinaldomarquesglobo

“EU BUSCO A CERTEZA NO ELOGIO E A CORREÇÃO NA CRÍTICA”

No mês em que a maior cidade da América Latina completa 461 anos, a Revista Pinheiros conversou com o jornalista e apresentador do Bom Dia São Paulo, Rodrigo Bocardi. O pinheirense, que se transformou no porta-voz das primeiras notícias da cidade, conta como assumir a bancada do telejornalismo da TV Globo mudou sua visão da cidade, o que espera para 2015, a importância das críticas e, é claro, sua relação com as raquetes e o Clube.

Antes de virar apresentador, você teve diversas matérias de destaque. Tem alguma marcante?

As grandes coberturas. Para mim, o factual, aquela coisa que acontece na hora, é o que me dá mais prazer até hoje. As coberturas do Mensalão, do PT, o acidente da TAM - fui o primeiro repórter a chegar ao local. Peguei carona na garupa de uma moto, não acreditava que um avião pudesse ter atravessado a pista e caído do outro lado. Depois, vem a morte do Michael Jackson e outras tantas. Até hoje, no estúdio, se tem algo rolando no improviso, na surpresa do minuto, acho muito bacana.

O que levou você a apresentar o Bom dia São Paulo?

A proposta da TV Globo era para fazermos um jornal mais vivo, que retratasse mais o Estado de São Paulo, de uma forma mais real. Foi um pouco do meu jeito de trabalhar. Já fui editor, fiz o caminho contrário ao de outros profissionais na televisão. Também tinha uma demanda, mas não muito forte, de ser algo opinativo, que tivesse uma marca, que cobrasse do poder público, mas também do cidadão. Para termos uma cidade melhor, um Estado melhor e, no dia a dia, a coisa foi sendo construída, a informalidade veio.

Você se identificou com essa proposta?

Tem muito de mim ali, do meu jeito de ser. Tento ser o mais transparente possível,  dentro de tudo o que é possível, sem cometer loucuras. Tentei impor o meu estilo e percebo que tivemos uma boa aceitação. Com toda informalidade dele, com o imprevisível, tem todas as críticas, as pontuações, as minhas opiniões, que são da TV Globo também. Eu falo que fico testando limites todos os dias, para tentar fazer uma coisa mais informal possível, reproduzir ao máximo o que eu sou, o que as pessoas são no dia a dia.

Como você trabalha as críticas e os elogios?

O ser humano nasceu para críticas, não para elogios. As pessoas não movem um dedo para elogiar, mas movem uma montanha para criticar. É natural. O elogio ou o comentário positivo vem para dar certeza daquilo que você está fazendo. Ele dá a tranquilidade de que
você está no caminho certo. A crítica leva ao ajuste, quando ela é bem feita. No fundo no fundo, eles são iguais, um dá a certeza, o outro leva você para um caminho melhor. Tanto o elogio quanto a crítica, eu coloco na mesma prateleira. Eu busco a certeza no elogio e a correção na crítica.

Você vê uma marca sua no jornalismo?

Tenho dúvidas sobre isso. As pessoas têm uma dificuldade muito grande de reconhecer. Acho que estou fazendo, sobretudo agora, na apresentação do Bom dia São Paulo, algo diferente.  Diferente de apresentação, de algo que nunca foi feito na Globo, no jeito de fazer jornal e de apresentar. Com opinião, com o improviso que tenho ali. Com meu jeito de ser, de assumir todos os erros na maior tranquilidade. Eu falo para a minha equipe: - tem de ter consciência do que estamos fazendo, olha o jornalismo que a gente está fazendo, olha a diferença de tudo o que a gente vê aqui, na Globo. Eu aposto nisso. Acho que o jornal local vai ter de ter, no curto espaço de tempo, uma importância maior do que um jornal de rede, na TV Globo.

O que mudou, na sua visão sobre São Paulo, depois que começou a apresentar o jornal?
Vejo como uma cidade fantástico-caótica. Ao mesmo tempo em que fascina pelo que é, ela deprime, por causa de tantos problemas, de tanta inviabilidade, de tanto descaso, de um crescimento desordenado. Não posso deixar que eu seja consumido por esse sentimento negativo. Esse sentimento pessimista. E esse é um exercício que eu faço todos os dias, porque se eu olho com olhos nus, enxergo uma inviabilidade tremenda. Mas, ao mesmo tempo, não posso aceitar isso. Eu sou daqui. É a minha cidade, é aqui que pretendo morar para sempre.

O jornal começa às 6h. Como é a sua rotina?
Vou dormir entre 20 e 21h da noite, pelo menos tento, porque tenho trêsfilhos, e levanto às 4h. Mas é isso: não durmo durante o dia, tomo uma dose de energético pela manhã, todos os dias. Venho jogar Tênis e Squash, na maior disposição. Durmo sete horas por noite e fico torcendo para chegar a sexta-feira, porque sábado, como eu digo sempre, é dia de dormir até acordar.

Como o Pinheiros entrou na sua vida?
Eu vim do interior e morei em Perdizes, Interlagos, Vila Madalena, Real Parque. O Pinheiros surgiu com a minha esposa, que entrou aqui, no Clube, primeiro. Acho que foi na busca de um clube mesmo, a gente queria um lugar para ir com os filhos e em São Paulo. E não bastava academia. Academia não é tudo. E aí veio o Pinheiros. Quando eu
estava para entrar no Pinheiros, a gente acabou mudando para Nova York. Eu acabei entrando no Pinheiros de fato, agora, quando voltei. E as crianças vêm também, tenho aproveitado ao máximo.

Qual é a sua relação com o Clube?
Minha relação é a do esporte mesmo, das aulas de Squash e de Tênis. É isso que gosto de fazer aqui. Fitness, de vez em quando, porque tem de tomar cuidado, senão fica muito bombadinho fácil, daí não dá certo para fechar a gravata no pescoço (risos). Mas, o que gosto mesmo é desse negócio do Tênis e do Squash. Adoro o Squash. Eu sempre joguei.

Por que Squash?
O Squash resolve a sua vida em meia hora. Não tenho paciência para esteira e bicicleta, porque você corre e não chega a lugar nenhum. Pelo menos em meia hora você está com a camisa totalmente suada e molhada. E, além de tudo, você tem a vantagem de poder colocar o nome de alguém na bolinha e mandar ver na parede (risos). É relaxante. Você resolve todos os problemas da sua vida – os cardíacos, a necessidade aeróbica, você resolve o problema da sua mente, cura qualquer estresse, você deixa de ter raiva de qualquer pessoa. E o Tênis vai na mesma linha, apesar de não ser tão tenso quanto o Squash. O bom é que é ao ar livre.

É uma espécie de fuga também?
Não sei se é fuga. Eu vivo de notícia. Falo dessa coisa de desestressar, mas não reclamo de ficar nervoso no trabalho. Os caras me pagam para eu ficar estressado. Essa é a minha vida, escolhi isso. Se quisesse outra coisa, teria escolhido outra coisa. Acho que é isso o que move o meu dia a dia. Estar ali, no ar, é uma adrenalina só. Consome até as suas pernas, mas é uma delícia. É viciante. Eu vejo o estresse do dia a dia de uma forma positiva, é adrenalina mesmo. Aí eu venho aqui e me sinto melhor, vou viver melhor, vou ter um sono mais intenso.

Estamos no primeiro mês do ano. O que você espera para 2015?
Vejo um ano difícil. Isso falando de País. Primeiro, que 2014 foi um ano para todo mundo, de modo geral, de muitas emoções. Mas em termos de produtividade, foi um ano muito ruim. Copa do Mundo, Eleições, foi um período em que as coisas meio que andaram de lado. Agora, que você tem alguma sinalização de que podem começar a andar, ninguém dá certeza alguma. Então, falta essa confiança. Vai ser um ano para ver se a gente consegue resgatar essa confiança, ter um ano bom. Estamos aqui e aqui vamos ficar. E essa história de discursinho de que vou embora para Miami, não dá. Porque a gente tem de assumir responsabilidades, cada um fazer a sua parte. Não adianta dizer que vai morar
em Miami...

Você se considera profissionalmente realizado ou ainda falta alguma coisa?
Não sei se isso vai acontecer, de se realizar profissionalmente. Acho que cada dia tem um desafio, não acaba nunca. Você vê essas aventuras do dia a dia, são coisas da reportagem, que não têm muito a ver com a carreira em si. E na carreira todo dia tem um desafio, mesmo você fazendo a mesma coisa. Seja na reportagem com matérias diferentes que você faz ou em  cada dia em que você encontra histórias diferentes. Então, como você vai se realizar diante do incerto. Diante do que você não sabe que vai acontecer amanhã ou de qual história você vai encontrar pela frente. E tem o desafio meu, atual, que é a apresentação do jornal.