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Nem mocinha e nem vilã, a atriz Gabriela Duarte está à procura de personagens que a desafiem e a tirem do lugar que a levou à fama.
Nessa busca, a pinheirense retorna aos palcos, no Teatro Tuca Arena, com a peça Através do Espelho, de Ingmar Bergman. Longe da televisão e dos personagens cômicos que marcaram sua carreira, a filha de Regina Duarte vive um novo momento na sua carreira. Em uma conversa, com a Revista Pinheiros, a associada falou sobre essas mudanças, a fama de boa moça, a comparação com a mãe e, claro, sobre o Clube. Confira.

Você está em cartaz com a peça Através do Espelho. Do que se trata?
A peça nos faz pensar na forma como estamos tratando as pessoas que amamos. De que forma nós estamos permitindo que as pessoas nos tratem.
E de que forma a gente está tratando a si mesma. A minha personagem, a Karin, está tentando reconstruir uma relação familiar e está tendo uma enorme dificuldade. Porque existe um isolamento da parte dela e o isolamento individual de cada um. Até que ponto as pessoas estão abertas a se conectar, mesmo que sejam pessoas da mesma família? Mesmo que seja o seu pai, o seu irmão, o seu marido?

Em entrevista, você disse que o teatro é o tipo de palanque de que você quer falar no momento. A peça tem um assunto mais sério, que é a família. Por que falar disso agora? Acho que você vai amadurecendo, vai tendo necessidade de se aprofundar e vai se sentindo mais preparado para mexer em coisas mais densas e não tão superficiais. Não que ache que o que eu tenha feito até hoje tenha sido superficial. Acho que algumas coisas foram realmente mais leves. Passei um tempo fazendo bastante comédia que, pela própria natureza, dela, tem uma leveza, apesar de ter densidade, muitas vezes. Mas estava sentindo necessidade de fazer algo que me desafiasse mais, que me fizesse fazer um mergulho mais intenso.

Como atriz, você se sente mais segura?
Ao longo dos anos, fui acumulando muitas coisas e fui tentando levar minha trajetória para algo bem consciente mesmo. O que eu quero, o que me interessa realmente e o que vale a pena realmente. O legal dessa profissão é que ela tem muita variedade. Mas acho que tem uma hora na sua vida que você tem de assumir coisas não feitas até agora, e é o que venho fazendo.

Mudar seria correr riscos profissionalmente?
Se a gente não correr riscos, fica paralisado e imobilizado em uma coisa só. Essa busca por uma trajetória mais consciente tem a ver com você não aceitar mais determinados rótulos não aceitar mais que coisas peguem em você. É uma profissão em que você pode tudo, então porque não aproveitar todas as possibilidades possíveis? E aí ficar só parada em um lugar é complicado, não roda a energia, sabe?

Você acha que, pela sua trajetória e tempo de carreira, já parou essa história de comparar?
Nunca tive nenhuma questão com a coisa da comparação. Se quiserem, podem me comparar a alguma atriz da minha geração, Adriana Esteves, que começamos juntas, temos idade parecida.
Somos da mesma geração, vivemos no mesmo contexto social, isso é uma comparação. Mas fazer comparação com a mãe, não dá. Ela é de outra geração, ela passou por momentos de vida diferentes, ela tem 30 anos a mais do que eu. O que existe é dizerem que somos parecidas. Existe uma coisa chamada genética, que essa a gente não vai lutar contra nunca, graças a Deus.

No começo da sua carreira, você tinha uma relação mais forte com a sua mãe, uma proximidade maior. Você acha que essa independência também tem a ver com esse seu momento?Tem a ver com uma busca de um caminho mais pessoal mesmo. Tem uma hora que você tem que ir mesmo, colocar a cara para bater e ver qual é a sua identidade, independente de qual seja, melhor ou pior, não importa. Tem uma hora que você tem que fazer aquilo que a vida chama para fazer. E essa independência e essa liberdade aparecem aí também.

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Se a sua filha for para a mesma profissão que a sua, você apoiaria?
Claro. Se ela realmente quiser, se ela me provar que quer muito isso e que vai fazer isso com seriedade e disciplina, que vai estudar e vai ser a melhor (risos), ela tem todo o meu apoio.

Você teve o apoio da Regina Duarte?
A minha mãe ficou muito neutra, a vida inteira. Acho que é uma coisa interessante, porque não deixa de ser uma forma de você estimular a pessoa a
buscar exatamente o que ela quer. Se estou neutra, nem apoio, mas também não atrapalho. A vida inteira a postura dela sempre foi muito coerente com relação a isso. Eu já acho até que a minha filha, se ela realmente quiser, eu não teria problema de ser até mais ativa, pró-ativa, nesse sentido. Até porque conheço bem essa questão de ser filha de alguém famoso. Acho que eu encaminharia, talvez. Mas ela vai ter que comer muito arroz e feijão.

Você é conhecida da TV, mas começou no teatro. É onde você se sente mais à vontade?
Não sei se me sinto mais à vontade, mas o teatro é difícil, eu sou ariana, não gosto de nada fácil. Gosto de desafios, de me comprometer com coisas que vão me levar a um outro patamar. Tenho muita dificuldade de ficar no mesmo lugar.

A TV estava fazendo isso com você?
Acho que durante um período da minha vida, sim. Não que a TV tenha feito isso, eu fiz isso comigo mesma. Acho que, por diversas razões, eu estava me permitindo fazer personagens sempre muito parecidos. E isso para mim não dá. Tem uma hora que eu falo ‘meu Deus, não, preciso sair daqui’. É quase uma sensação claustrofóbica mesmo. O teatro me desafia em todos os aspectos, não só com oferta de personagens, mas fisicamente. O corpo do ator, a voz do ator. Acho que o teatro faz isso, me desafia nesse sentido, uma coisa macro.

Você acha que está dando um adeus para a TV? Não, espero que não. O que faria você voltar para a TV?
Um bom papel. Acho que o teatro está me alimentando em uma questão de logística também. Hoje eu sou mãe, tenho dois filhos, tenho um filho que é quase um bebê, ele tem dois anos e meio. Eu tenho muito medo de, neste momento, me ausentar muito e não entender o que está acontecendo.

Quando comentamos que íamos entrevistar você, o público mais antigo disse ‘ela é comportada’, já o público mais novo falou ‘ela é muito rock’n’roll’. Sabe de onde vem essa diferença?
Acho que o público jovem acompanhou mais essa mudança mesmo, ele me pegou em uma fase em que já venho fazendo a coisa mais da comédia. Acho que esse público que fala ‘ela é comportada’ é o que me pegou em uma fase que eu vinha fazendo coisas parecidas, e comportadas. E as mocinhas são comportadas. Elas têm de ser.

Você se sente mais rock’n’roll ou comportada?
Eu me sinto o que eu quiser, esse é que é o grande barato da vida. Hoje me sinto livre para ser exatamente o que eu quiser. E é muito legal quando você vai descobrindo isso na sua profissão.

Falando sobre o Clube. Para uma atriz famosa como você, o que significa um espaço como esse?
Significa esse oásis de lazer, no meio de uma cidade como São Paulo, opressora e maravilhosa. Adoro São Paulo, sempre morei aqui, fui criada aqui, mas é uma cidade opressora. Então, ter um lugar de lazer, de encontros sociais com amigos e um lugar com natureza, dentro de uma cidade como São Paulo, é maravilhoso. Eu adoro esse Clube.

Você usa o Clube? Quando?
Meus filhos usam muito. Eu venho nos fins de semana. Às vezes, durante a semana, venho com eles também. E queria que eles usassem mais, que eles fizessem mais esporte aqui. A Manu já tem uma rotininha mais puxada, com outras coisas, e meu filho ainda não tem idade para frequentar o CAD, mas quero muito que ele faça.

Fotos: Reinaldo Vieira Ortlieb