419A00902O universo do esporte feminino está em boas mãos com a Dra. Tathiana Parmigiano, ginecologista que atende esportistas em busca de pódios no Brasil e mundo afora, e entende bem os cuidados especiais que necessitam as mulheres esportistas.

Com título em Medicina Esportiva, a pinheirense integrou a equipe médica do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e foi para as Olimpíadas de Londres 2012 fazer o acompanhamento das atletas da seleção brasileira. No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a Revista conversou com a ex-atleta da Natação e do Polo Aquático para saber mais sobre sua profissão e como funciona o trabalho no esporte.

O fato de ser ex-atleta a ajudou a virar uma especialista em medicina esportiva? Isso fez toda a diferença e ainda faz. Conciliar as duas coisas que mais amava, esporte e medicina, era perfeito. Quando prestei a Residência já sabia que existia uma alteração que poucos conheciam, que se chamava “Tríade da Mulher Atleta”. Ela já era um link entre a Ginecologia e a Medicina Esportiva. Ainda durante a Residência, fui fazer Pós em Medicina Esportiva. Isso mudou minha vida profissional e concretizou meu sonho de unir as duas coisas de vez. Durante minha vida de atleta, eu vivia na água e, desde cedo, torcia para que minha menstruação não caísse no dia de competição.

No seu tempo de atleta, sentia falta desse cuidado com uma ginecologista? Nunca tivemos nada assim na época. Na verdade, acho que a maioria simplesmente aceitava que o ciclo menstrual era aquilo mesmo todo mês e nada poderia ser mudado. A ida à ginecologista era apenas para fazer exames de rotina. E ainda é assim, com muitas atletas, hoje em dia. A diferença é que agora, quando me procuram, não deixamos de cuidar da saúde, mas também falamos de performance, de rendimento esportivo, de como a menstruação, a TPM e o anticoncepcional podem influenciar os resultados esportivos da paciente, seja amadora ou profissional.

Você foi a primeira ginecologista a integrar o Comitê Olímpico Brasileiro. Como foi esse trabalho? Estou no Comitê Olímpico desde 2011, quando integrei a Equipe Médica dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Antes, tinha trabalhado com o Basquete e com o Judô. O COB valorizou o fato de poder proporcionar um atendimento diferenciado a suas mulheres. Começamos a atender algumas atletas selecionadas e o fato de me levarem à competição foi um pioneirismo mundial por parte deles. Outras delegações vinham buscar atendimento nas instalações médicas brasileiras. Em missões como o Pan ou os Jogos Olímpicos, eu atendo a todos os atletas presentes na delegação e as queixas femininas são mais diretamente destinadas a mim.

Quais foram os resultados de ter uma ginecologista no Comitê? O cuidado de ter uma médica especificamente para as mulheres permite que as atletas não omitam algumas queixas e possam ser melhor atendidas em relação a suas demandas. Muitas vezes, o ambiente masculino ou a especialidade médica não específica inibia a procura por ajuda. A cólica menstrual, um fluxo menstrual excessivo, uma alteração de humor pré-menstrual ou outras queixas mais específicas poderiam minar todo um treinamento e colocar muito a perder. Nessas horas, qualquer detalhe faz a diferença e esses são “grandes detalhes” que passaram a ser considerados.

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Você integrará a equipe de médicos das Olimpíadas Rio 2016? Faço parte da lista de médicos do COB com potencial para ser convocados. Mas a convocação oficial ainda não saiu para ninguém. O trabalho já está acontecendo. Mas vamos esperar meu nome aparecer de novo. Londres foi sensacional. O Rio será ainda mais.

Quais os benefícios da prática de atividade física para a saúde da mulher? Atividade física é realmente “um santo remédio”. Diminui os níveis de colesterol e assim as doenças cardiovasculares. Trabalhos apontam cada vez mais benefícios em pacientes com câncer e, entre as mulheres, ressaltamos o de mama e o de cólon, tanto para prevenção como durante o tratamento. São inúmeros os relatos pessoais de melhora no número ou intensidade de calores a que as mulheres na menopausa estão suscetíveis. Além da melhora imensurável da autoestima.

Quando você engravidou, ainda praticava esportes? Teve algum cuidado especial? Quando eu engravidei já não competia mais, mas me mantive ativa a gestação toda. Ganhei apenas 9 kg. Precisava dar o exemplo e colocar em prática tudo o que incentivava (risos). Não sabia que era capaz de arrumar tempo para tanta coisa, mas a gestação é um estímulo excelente para bons hábitos. A água sempre foi minha parceira e continuou sendo. Fiz musculação, fortalecimento do assoalho pélvico, nadei a gestação inteira. Cada um tem sua história, mas acredito que ter me mantido ativa ajudou muito mesmo. Meu filho nasceu com 4.100 g e é um gatinho (risos).

Como devem proceder as esportistas que querem ser mães? Mantenham-se ativas. A atividade que se faz três meses antes de engravidar geralmente é a que se poderá e gostará de fazer grávida. Exceto esportes de contato e atividades com risco de queda, como o Ciclismo de Rua. Como mencionei antes, algumas adaptações são necessárias, principalmente nas mais competitivas. Mas saber que a prática esportiva traz muitos benefícios durante a gestação é o que deve ser mais divulgado e incentivado.

Qual é a sua relação com o Clube? O Clube faz parte da minha história. Fui militante da Natação aos 11 anos. Competi nacional e internacionalmente. Mais tarde, passei a jogar Polo Aquático, mesmo durante a faculdade. Minhas maiores amizades foram feitas aqui. Hoje, faço o parto das minhas antigas companheiras de time e das esposas dos meus amigos nadadores. Também atendo diversas atletas daqui. Frequento o Clube para o esporte, para a pizza com as minhas amigas e para ir ao parquinho com meu filho. São mais de 25 anos de história aqui dentro. Eu e o Clube vamos nos adaptando, mas nunca nos largamos (risos).