“NÃO SOU NENHUM MICHAEL JACKSON, MAS O MEU SONHO FOI ALÉM DA MINHA EXPECTATIVA”

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Olha a Beija-Flor aí, gente! é o bordão de um dos sambistas mais reconhecidos do Brasil: Neguinho da Beija-Flor. A Feijoada Carnavalesca, que abre o carnaval pinheirense, será só alegria e simpatia ao som da voz do intérprete oficial da Escola de Samba carioca.

Com quase 40 anos de carreira, o cantor e compositor entra em cena, ano após ano, na Sapucaí, e faz o carnaval do Rio de Janeiro.
Este ano, o Pinheiros terá a honra de receber o sambista para uma apresentação especial. Em entrevista à Revista, Neguinho da Beija-Flor falou sobre a carreira e o que os associados podem esperar do seu show na Feijoada de 2015.

Aos dez anos de idade, você ganhou um concurso puxando um samba de Jamelão. Desde aquela época,você já sabia que queria ser um sambista?
Sempre foi o meu sonho. Lógico que, honestamente, não esperava. Não sou nenhum Roberto Carlos nem Michael Jackson, mas o meu sonho foi além da minha expectativa. Eu não sabia que chegaria ao ponto em que cheguei, de viajar o mundo todo e ser conhecido internacionalmente. Esperava pelo menos ter uma música gravada com algum artista. Sem querer me vangloriar, hoje sou um dos intérpretes do Carnaval da Marques de Sapucaí mais requisitados. E talvez o mais conhecido. Esse privilégio, de ser uma das vozes mais conhecidas do maior espetáculo audiovisual do planeta, eu não esperava, não. Mas, era um sonho de menino.

Você é o intérprete oficial da Beija-Flor de Nilópolis. Você imaginava ter uma história tão longa como a da Escola de Samba?
Honestamente, não. Mas foi a Escola que me deu a oportunidade, então sou fiel a ela. No carnaval de 2016, eu farei 40 anos de Beija-Flor, entrei lá com 18 anos. Então, é muito gostoso isso. O carnaval e o samba representam tudo para mim. Isso só não é mais importante do que a saúde, na minha concepção.

Além da voz, você é considerado um dos mais carismáticos intérpretes do Carnaval do Rio de Janeiro. Como você vê esse reconhecimento?
Às vezes, quando as pessoas me fazem essa pergunta, eu respondo o seguinte: agora estou me vendo na televisão direto, cantando em comerciais de supermercados, por exemplo, aqui do Rio de Janeiro. Acho que não sou eu. Quando eu me vejo na TV, acho que é outra pessoa.

Você costuma se ouvir? Você gosta da sua voz?
Quando me escuto, eu me pergunto: ‘minha voz é isso aí? Minha voz é feia assim?’ (risos). Acho minha voz rouca e estranha. Não gosto da minha voz, não me ouço. Ouço às vezes, quando termino de gravar. Escuto uns LPs, porque, se ficar me ouvindo, vou me policiar muito, achar que devia ter feito melhor. Dá vontade de voltar à gravadora e gravar de novo.

 Quais são as suas influências musicais? O que você escuta durante o ano?
Costumo escutar Roberto Carlos, Jamelão, Ray Charles, Alcione, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e muitos outros.

Ao longo desses quase 40 anos na Escola de Samba, que episódios mais marcantes você destacaria?
O carnaval mais marcante, até antes da doença, foi o de 1976, porque a Beija-Flor ganhou o primeiro Carnaval de sua história, com um samba-enredo de minha autoria, comigo puxando na avenida. Mas, agora, o Carnaval de 2009 passou a ser o mais marcante da minha carreira, superando o de 76. Isso porque puxei um samba na avenida,
com câncer, em pleno tratamento da doença, que durou um ano e meio. No período mais crítico, aguentei puxar o samba, fazendo quimioterapia, sem cabelo. E, além disso, ainda casei na avenida. Foi o ano em que pensei: vou puxar o samba, porque vai ser meu último ano. E graças a Deus e à oração do povo, não foi. Então, esse carnaval passou a ser o mais marcante da minha vida.

Você venceu uma doença muito grave. O que esse episódio mudou na sua arte e na sua vida?
Mudou muita coisa. A gente dá mais valor ao ser humano e aos amigos. Tanto é que estou em Copacabana, mas vivo mais onde nasci e fui criado, em um bairro super-humilde, em Nova Iguaçu. Construí algumas casinhas aqui e fiz um espaço cultural para as crianças brincarem. Depois do que eu passei, a vida se resume a isso: humildade.

Depois desse tempo todo de carreira, qual é a sua principal motivação para cantar samba?
Eu adoro isso. Adoro cantar samba. Adoro o que faço. Não só porque me dá um retorno financeiro, mas também pela satisfação que isso me traz.

Qual é o samba-enredo mais marcante da sua carreira?
Hoje, o samba-enredo de que eu mais gosto é um que cantei no carnaval de 2009, que não é nem de minha autoria, se chama No Chuveiro da Alegria. Ainda hoje, quando coloco os pés no Sambódromo, a sensação é a mesma da primeira vez. Uma vez, eu tive a oportunidade de perguntar isso ao Roberto Carlos e ele disse a mesma coisa. Então, não é só comigo.

O que fazer para não deixar o samba morrer?
O samba agoniza, mas não morre. O samba nunca morreu. Já passei por diversos segmentos, Tchá Tchá Tchá, Lambada, Bolero, e o samba está aí. Eu graças a Deus sou muito feliz, porque dei sorte de entrar em um segmento que nunca morre, que é o do samba.

Qual é a diferença entre o Carnaval do Rio de Janeiro e o de São Paulo?
Os dois estão em pé de igualdade, em termos de beleza. Mas o do Rio de Janeiro tem mais notoriedade, é mais badalado, o mundo conhece mais o carnaval carioca.

O que você sente ao se apresentar em eventos que celebram o carnaval, como a Feijoada do Clube Pinheiros?
Eu já me apresentei aí uma vez e foi maravilhoso. Foi divino. Estou muito feliz com o novo convite. Primeiro porque o Clube é superbacana, bem receptivo. O público do Pinheiros sempre me recebe muito bem. E eu já estava assim na esperança de ser chamado outra vez. E graças a Deus fui, sinal de que gostaram.

O que os pinheirenses podem esperar do show na Feijoada Carnavalesca, evento que abre o Carnaval do Pinheiros?
Pelo carinho com que o Clube me recebe, a gente procura fazer um show cada vez melhor. Vou botar para quebrar. Dia 7 de fevereiro, estarei, com muito entusiasmo, procurando fazer aquele show maravilhoso que o Clube Pinheiros merece.

Qual é a sua relação com o esporte?
Praticar esporte atualmente, não, mas já pratiquei. Hoje, primeiro que a idade não permite. Eu dou umas caminhadas na praia, torço para o futebol, meu time é o Flamengo. Em São Paulo, é o Santos. Sou simpatizante do esporte.