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O olhar de Marcelo Rosenbaum transformou não somente os moradores de Várzea Queimada, uma das cidades com menor Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, como também o trabalho e suas vidas. Depois de conhecer a fama com o quadro Lar Doce Lar, do programa Caldeirão do Huck (Rede Globo) e Decora (GNT), um dos designers mais requisitados do País criou o projeto social A Gente Transforma.

Com inspiração nos valores da brasilidade, Rosenbaum realizou o sonho de utilizar o design para expor a alma brasileira e promover um mergulho nas culturas do Brasil. Em entrevista à Revista, o pinheirense conta sobre o começo do projeto, as dificuldades do mercado com a nova escolha e revela seu antigo desejo de ser um atleta pinheirense da Natação.

Projeto A Gente Transforma - Chapada do Araripe - Piauí. Povoado Várzea Queimada, Município de Jaicós, Estado do Piauí. Fevereiro, 2012. Foto: Tatiana Cardeal.

Quando surgiu a vontade de criar um projeto social?

É difícil dizer quando, porque na verdade é um movimento que acompanha a minha vida. Mas a ideia veio de uma inquietação, de querer entender como poderia colocar o meu dom e o meu talento mais a serviço das pessoas e do planeta. Sempre tive essa inquietação de não me conformar com a realidade que encontramos hoje, com essas diferenças tão grandes. Agradecendo e honrando os benefícios que tenho, mas também entendendo a minha responsabilidade frente à sociedade.

E como nasceu o projeto A Gente Transforma?

O projeto nasceu em um movimento no Parque Santo Antônio, em uma comunidade da zona sul de São Paulo. Construímos uma biblioteca, um campo de futebol, articulamos uniformes e bolas. Comecei a entender que trabalhávamos em outra dimensão, também, quando a gente se relaciona com as pessoas, escuta e fala, com essa abordagem de transformação social.

Projeto A Gente Transforma - Chapada do Araripe - Piauí. Povoado Várzea Queimada, Município de Jaicós, Estado do Piauí. Fevereiro, 2012. Foto: Tatiana Cardeal.

Como o projeto chegou ao interior do Piauí?

Ele foi para o Piauí por conta de uma métrica. Olhei o mapa do Brasil e vi que o índice de desenvolvimento humano (IDH), lá, é um dos menores do País. Quando a gente fala “baixo índice de desenvolvimento humano”, não imaginamos que de fato são pessoas com baixo índice de desenvolvimento humano. Você pensa: ‘será que elas são atrofiadas?’, ‘será que elas são incapazes?’, ‘será que elas são doentes?”. Como você pode falar que um lugar que não tem oportunidades nem olhar algum é de baixo IDH?

O que você encontrou quando chegou lá?

Quando chegamos, vimos pessoas amorosas, inteligentes, conectadas com a fé, e não uma fé burra, elas resistem por conta de uma fé da existência, de estarem vivas, porque elas não têm o cuidado de ninguém. São absolutamente esquecidas de qualquer atenção governamental – a única assistência que elas têm é quando há uma eleição.

Qual a transformação do projeto na cidade?

O A Gente Transforma trabalha exatamente com esse olhar para quebrar essas crenças impostas por nós e por essa ideia de desenvolvimento que impulsiona só o desejo do consumo sem entender quem está por trás, quem é esse ser humano que está produzindo e tem uma história. Em Várzea Queimada identificamos o cesto de palha que eles já faziam, que os ancestrais faziam. Eles olhavam para o cesto e falavam que era lixo, algo velho, que iam jogar fora. E nós falávamos: ‘não, não é lixo, é o motivo de estarmos aqui’. Ficamos um mês lá neste primeiro movimento do projeto. O nosso projeto não transformou a cidade. Ele transformou as pessoas, que vão mexendo com a cidade e a sua percepção da cidade.

Como o projeto transformou o seu trabalho?

O primeiro produto a ser transformado fui eu. Fui a primeira pessoa impactada, quando comecei a ter essas percepções, que vieram das minhas relações com esses meus professores caboclos, lá desse sertão, os indígenas, os quilombolas. Qualquer processo de transformação passa e se inicia no nosso. Eu iniciei uma transformação e hoje ainda estou sendo transformado a cada processo, a cada ida a uma comunidade diferente, quando entendo coisas novas, me entendo de formas diferentes e me relaciono com as pessoas de formas diferentes.

Como o mercado recebe essa sua mudança?

Hoje em dia, o escritório passou por uma transição muito difícil, porque a gente vem de outro mercado. Sou um profissional reconhecido por fazer projetos tanto os da televisão como também os de mercado e, em um primeiro momento, rejeitei tudo isso. Esse processo foi se alinhando, a gente não precisa jogar nada fora. Eu dei novo significado à forma de fazer – posso fazer tudo o que fazia antes, só que o meu propósito é não fazer se não houver impacto ou transformação. Eu faço as mesmas coisas, mas aí eu peso e eu entendo que a minha forma de trabalhar está dentro do que chamamos de Design Essencial. Hoje, eu trabalho no escritório quase que 100% com o A Gente Transforma.

Você apareceu para os brasileiros em um programa de TV, em um quadro assistencialista que era o Lar Doce Lar. Você acha que esse seu novo perfil foi o que o afastou da TV?

Não. Tive muitas questões nesse movimento. Eu não entendia o que estava fazendo na televisão. Porque não era para mim. Não era para ficar famoso. Sempre tentei entender como isso poderia ser uma ferramenta. Claro que é gostoso ser reconhecido na rua pelo seu trabalho. Mas queria mais. E aquele era um programa de entretenimento, não de troca. Acho que esgotei o timing lá. Foram sete anos no Caldeirão do Huck. Foi um exercício de comunicação, de entrar na casa das pessoas, de entender essa dinâmica da comunidade.

Você é um comunicador também...

A comunicação faz parte da minha vida e eu fico muito à vontade com isso. Acho, inclusive, que valeu para essa transformação. O Lar Doce Lar foi muito importante nesse movimento de conhecer o Brasil, da casa das pessoas. Mostrava a importância da casa, não entregava luxo, entregava dignidade. Uma casa com porta e janela. Porta, enquanto privacidade e segurança. As pessoas não têm isso e a gente se conforma de achar que isso não é preciso. Ou que isso é luxo. Mas era um sofá, uma cozinha, um armário para guardar a roupa, uma cama para dormir. Isso é luxo? A gente se conforma em achar que pode existir a favela. Então o Lar Doce Lar tem um papel muito importante na cultura de olhar para a casa.

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Qual é a sua relação com o Clube?

A minha relação com o Clube é a coisa mais absurda. Sou de Santo André, treinava Natação e a gente competia, fazia competição para o Campeonato Paulista, Brasileiro. Aí chegavam os tubarões do Pinheiros ganhando todas as medalhas e pensava que um dia eu queria ser do Pinheiros. A Cris (Miranda) que é a mãe dos meus filhos é associada desde sempre. A mãe dela é veterana. E eu brinco com elas que dei o golpe do baú. Meu título no Pinheiros foi um golpe do baú. Ser associado do Pinheiros tem para mim essa memória afetiva muito grande. Eu vou ao Clube com meus filhos, gosto muito. Essa relação afetiva, fantasiosa. Meu filho faz vários esportes, Basquete, Skate, Natação. Meu sonho é que eles fossem nadadores do Pinheiros, os tubarões do Pinheiros (risos). Mas essa frustração vou ter de guardar para mim mesmo.

 
Foto: 1 e 2 Tatiana Cardeal Bogoió
Foto: 3. Divulgação