Claudio e Claudia Carsughi nas Piscinas Externas do Clube

Um pai com uma história interessante. Uma filha, jornalista, com vontade de
registrar os fatos. O resultado? Claudio Carsughi Meus 50 anos de Brasil - a
biografia de um dos personagens mais importantes da mídia esportiva do País.

Quem acompanha, hoje, a venda do livro escrito por Claudia Carsughi, nem pode imaginar o trabalho que foi convencer o pai a falar sobre sua vida. "Eu não queria o livro, porque achava que a minha vida não interessava para ninguém.", revela Carsughi.
Após anos tentando escrever o livro, Claudia desistiu de apoios e foi sozinha procurar as histórias. Entre depoimentos de personalidades, como Fausto Silva, Milton Neves, Emerson Fittipaldi (que assina o prefácio), a jornalista começou a ter o interesse do pai. "A maior dificuldade era dentro de casa, ele torcia para não dar certo", lembra a autora.
Foi para entender um pouco mais desse processo que a Revista Pinheiros reuniu os Carsughi, em uma conversa descontraída e bem-humorada, na Lanchonete da Piscina.
Veja o resultado desse encontro.

Como surgiu a ideia de fazer essa biografia?
Claudia: Percebi que existia uma carência de informação e que não havia registro, em nenhum lugar, das histórias que meu pai viveu. Empresas onde ele trabalhou sempre ligavam pedindo informações e daí surgiu a primeira ideia, mas há muito tempo. Quando o Reali Júnior lançou o livro Às Margens do Sena, eu gostei. Consegui falar com ele e ganhei o primeiro apoio. Nesse tempo, meu pai deu uma entrevista falando sobre a vida dele e o jornalista até comentou que isso deveria estar em um livro. Foi quando comecei a escrever, de verdade.

Qual foi a parte mais difícil de falar sobre a vida do seu pai?
Claudia: A parte mais difícil, sem dúvida, foi convencê-lo.
Trabalhei quatro anos nesse livro e, nos três primeiros, com ele torcendo para dar errado. Parece brincadeira, mas foi sério. Comecei a pegar depoimentos de pessoas famosas sem autorização do meu pai.
Claudio: Na verdade, nem precisava da minha autorização para essa parte, mas eu era frontalmente contrário, porque achava que era uma coisa que não interessava a ninguém.

O senhor, sendo um dos grandes nomes do jornalismo esportivo brasileiro, achava que não teria muita coisa para contar?
Claudio: A minha ideia era que as histórias da minha vida eram completamente particulares, para conversar em casa, com os amigos, e não via razão de transformar isso em um livro.
Claudia: Falsa modéstia. (risos) Mas, isso nem é verdade, porque o livro não tem apenas a vida pessoal, tem toda a parte profissional e a grande experiência por que passou, como, por exemplo, na transmissão da Fórmula 1, sem a tecnologia de hoje. Isso já é história do jornalismo esportivo e, em função disso, até consegui apoio da Lei Rouanet.

Como filha, você teve alguns privilégios?
Claudia: Na verdade, tinha algumas entrevistas feitas com ele, em viagens, uma coisa mais descontraída, mas acho que, se fosse uma pessoa de fora, ele tinha respeitado mais.
Claudio: Se fosse uma pessoa de fora, eu já diria de cara: 'Não obrigado. Não quero fazer esse livro'. (risos)
Claudia: Acho, porém, que se chegasse um estranho, com um projeto e a Lei aprovada, seria mais fácil. Tive de ralar muito mais para escrever esse livro.

Mas você, como filha, conhecia melhor as histórias dele.

Claudia: Para mim, foi produtivo, porque comecei a conhecer coisas de que não tinha ideia. A dificuldade foi buscar pauta no que não sabia que existia. Tinha um universo desconhecido e isso apareceu nos depoimentos das pessoas que tinham trabalhado com meu pai.
Foi nessa hora que ele resolveu ajudar e começou a escrever. Chegou um momento em que tínhamos 500 entrevistas escritas, um monte de depoimentos e eu não sabia para que lado correr.

Esse trabalho mudou a relação de vocês?
Claudia: Acho que me aproximou mais, principalmente porque essa relação se enriqueceu com uma série de fatos que eu não conhecia. Vi o mesmo pai teimoso, mas com novas histórias. (risos)

Como foi reviver alguns momentos da sua vida em uma ideia proposta pela sua filha?
Claudio: No fim, foi muito bom. Foram vários flash backs de momentos de que lembrava vagamente e de outros de que não tinha nenhuma memória, mas acho que todos foram importantes para enriquecer o livro. Inclusive, quando li as provas finais, achei comigo mesmo que tinha saído melhor do que pensava. Até que ficou agradável de ler. (risos)

Como era ter de contar as histórias para a sua filha?
Claudio: Contava de uma forma geral, nunca pensei de estar contando para a minha filha. Mesmo no começo, as histórias que ela gravava nas viagens, em momentos de férias, eram de uma forma normal.

Depois que você teve o aval do seu pai, o que mudou no processo?
Claudia: Andou bem mais rápido (risos), senão ia demorar mais cinco anos.
Claudio: Realmente foi um trabalho de quatro anos. Se eu tivesse topado deste o início, em um ano teríamos feito.
Claudia: Com certeza e ainda teria me poupado três de sacrifício.

Qual o grande trunfo dessa biografia?
Claudio: Acho que ficou um livro leve, agradável de ler, e que, para quem não é profissional, traz muita informação sobre como eram e como são hoje as várias áreas do esporte.
Claudia: Acho que o trunfo está nos termos históricos. Hoje, minha filha quer fazer jornalismo e não tem ideia de como era a profissão sem computador. O livro tem conteúdos que as pessoas não conseguem acessar em outros meios.
Claudio: Estou tentando remover essa ideia da minha neta, mas ainda não consegui. (risos)

O resultado final agradou?
Claudia: Eu gostei muito, mas sou suspeitíssima para falar.
Meu pai acha que a história pode interessar para alguns, para os que compraram o livro, pelo menos. (risos)
Claudio: Acho que virou um livro interessante, um livro descompromissado. Não tem uma ordem cronológica, pode-se ir para as fotos, voltar para o primeiro capítulo... há uma liberdade para se ler que me agrada.

Mas o trabalho não acabou. Agora, começam as vendas?
Claudio: Esse trabalho é todo dela. Eu me limito a autografar. (risos)
Claudia: Já percebeu que os micos são todos meus, né? O livro está à venda na Livraria Cultura e estamos negociando com outras. Existe um projeto de colocar em bancas de jornais, mas a maioria das vendas está sendo feita pelo nosso site: carsughi.jovempan.uol.com.br/livro. Os livros seguem autografados e não cobramos frete, acho que é um diferencial.

Com o livro já lançado, o que vocês têm de retorno?
Claudia: O retorno é muito interessante. Estou ouvindo mais detalhadamente o que eu sempre ouvi a vida inteira. Que ele é uma pessoa ponderada e que as histórias da vida dele são muito interessantes por equilibrar a vida pessoal com a profissional. Também recebo elogios por ter levado à frente esse projeto.
Claudio: Hoje, tenho o prazer de dar um livro com a minha história aos amigos. É importante lembrar que, no livro, eu coloquei uma dedicatória agradecendo o trabalho da minha filha e dizendo que, se não fosse ela, provavelmente esse livro nunca teria sido produzido.

Como foi ler a sua própria história?
Claudio: Obviamente, você vai lembrando ainda de mais coisas, além daquelas que estão escritas. Tive o prazer, também, de tirar algumas pedras do sapato, algumas coisinhas que conto, por exemplo, de como fui mandado embora da Editora Abril.
Claudia: Quase uma doce vingança, uma espécie de terapia. (risos) Eu ainda não sentei para pegar o livro pronto e ler, ainda não tenho a noção do todo. Como participei do processo, não tive tempo de ver o resultado final.

As fotos no livro são um capítulo à parte. A primeira é sensacional, a do senhor bebê.
Claudio: Essa foto ela fez questão de colocar para provar que quando nasci eu tinha cabelo. (risos)
Claudia: Ele foi o precursor do penteado do Neymar. (risos) Partimos de 100 fotos, mas a seleção não foi apenas de nós dois, tivemos a ajuda de dois jornalistas amigos do meu pai que foi muito importante.