O nome Marcelo Faisal já se tornou referência na arquitetura paisagística do Brasil. Com projetos premiados pelas Revistas Architecture House e Espaço D, além de ter recebido o título de Melhor Jardim na Casa Cor, em 2009, com a Praça do Viveiro, o pinheirense criou sua marca ao usar o conceito de simplicidade sofisticada e recursos naturais em seus trabalhos.

A obra de Faisal pode ser encontrada na cidade de São Paulo. Quem passa pela Praça Pan-Americana, Marginal Pinheiros e Berrini, pode apreciar os ambientes e canteiros criados pelo paisagista. Em entrevista à Revista do Pinheiros, Faisal conta mais sobre sua profissão, chama a atenção para a importância de ter espaços verdes no meio urbano e evidencia seu amor por jardins e pelo Clube.

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Como o paisagismo entrou na sua vida?

Brinco que sou um agrônomo do asfalto. Meus lados urbano e praiano são fortes o suficiente para equilibrar o meu lado rural. Portanto, tive a sorte de escolher uma faculdade e uma profissão que unissem essas três paixões, que são a cidade, o campo e a praia.

O que é preciso para ser um bom profissional nessa área?

Boa formação é fundamental em qualquer profissão. Todavia, a estética é uma questão pessoal, que é o grande diferencial na minha atividade. Ter uma boa formação, alto nível estético e perseverança para sobreviver a todos os obstáculos é o caminho para se conseguir o reconhecimento profissional. Mas também não se pode descuidar nunca, pois o processo é contínuo e sem fim.

Qual a sua formação?

Primeiro, minha formação foi em Agronomia. Iniciei meus trabalhos, como agrônomo, plantando no campo, aí migrei para pomares e naturalmente cheguei aos jardins, minha grande paixão. Com 10 anos de carreira, aos 35 anos, resolvi complementar meus conhecimentos cursando Arquitetura e Urbanismo. Entendo como uma decisão acertadíssima, pois fundamentou todo meu conceito de paisagismo, arquitetura e urbanismo. De forma sucinta, relato essa linha do tempo no meu livro.

Como foi a concepção do livro Fotos-Síntese?

Era uma data emblemática: 50 anos de vida e 25 de profissão. Não gostaria que passasse em branco. Com toda dificuldade de conseguir patrocínio, realizei um desejo que há algum tempo vinha me acompanhando.

Quais características definem seu estilo como paisagista?

Gosto de jardins funcionais e simples e, ao mesmo tempo, sofisticados. Os jardins minimalistas, contemporâneos, com uma pegada sustentável são o meu universo.

Como se define um bom paisagismo?

Bom gosto, baixa manutenção, funcionalidade e um ótimo desenho.

Como você desenvolve um projeto?

Faço jardins de inspiração, respeitando as condições climáticas e o partido arquitetônico. Não abro mão do entorno, ao contrário, quando ele é belo, trago-o para o contexto do meu trabalho. Levo sempre em conta o clima, o solo, a luz, os ventos, a insolação e a arquitetura, que fazem parte do projeto como um todo.

Quais os desafios mais comuns em um projeto de paisagismo?

O cliente é, hoje, felizmente, o meu grande aliado. Acho que consegui ser respeitado como profissional, mas não deixo de ouvir e atender ao desejo de cada cliente, dentro do que é tecnicamente possível. Tenho conseguido preservar e transformar meus clientes em amigos.

De quais projetos se orgulha mais?

Gosto muito da Praça Pan-Americana. Um jardim público que ganhou corpo e trouxe um bem-estar muito grande para as pessoas que ali estão. Tenho, também, como um dos meus trabalhos mais belos, um realizado em Angra dos Reis, no Frade, que será minha referência profissional.

Qual a relação da sustentabilidade com o seu trabalho?

Plena. Odeio desperdício. Só uso materiais certificados e de origem conhecida. Evito jardins com alto consumo de água e prefiro os de baixíssima manutenção. Por isso, gosto da simplicidade, que é o mais alto grau de sofisticação.

Qual a importância de ter espaços verdes na cidade, como o Clube?

São verdadeiros oásis urbanos. Servem como descompressores, são terapêuticos e amenizam as condições climáticas. Jamais poderão ser extintos, pois sua contribuição é grande e são responsáveis pelo bem-estar das pessoas.

O Pinheiros já o inspirou de alguma forma?

Mais do que nunca, agora comecei a me envolver. Estou muito empenhado em realizar um trabalho de médio a longo prazo, corrigindo distorções e fazendo uma orientação paisagística coerente, de baixo custo e de baixa manutenção. O Pinheiros é o nosso Central Park, nosso pulmão verde, guardando as devidas proporções. Por isso, o objetivo é preservar as árvores, responsáveis por todo conforto térmico e acústico, mesmo sabendo que o sombreamento que causam impede grandes investimentos em canteiros.

Depois de plantar árvores, ter filhos e escrever um livro, o que ainda falta fazer profissionalmente? 

Conduzir de forma serena meu trabalho, sem a cruel concorrência do mercado. E, se ainda tiver a felicidade, ter sucessão familiar nas minhas atividades, que não são poucas. A Fazenda do Pote, em São Miguel Arcanjo, no interior de São Paulo, é um belíssimo trabalho de produção de plantas ornamentais, que poderia seguir ‘ad eternum’. Está cada vez mais organizado e produtivo. O Viveiro Santa Cruz é outro trabalho que alimenta meu desejo constante pelo comércio de plantas diferenciadas para jardim.

Foto: divulgação