A atriz entrou no mundo artístico na ponta dos pés. Começou como bailarina, integrando o corpo de balé do IV Centenário de São Paulo, e logo foi da dança para o teatro, televisão e cinema. Desde que a pinheirense começou, há mais de 60 anos, os trabalhos ao longo de sua carreira são de impressionar, em qualidade e quantidade. Foram mais de 80 novelas e teleteatros, 40 espetáculos e 30 filmes. Eva Wilma eternizou personagens, como “Ruth/Raquel”, na primeira filmagem de Mulheres de Areia.

Recentemente, voltou a mostrar seu talento interpretando Fábia, de Verdades Secretas. Em entrevista à Revista, Eva Wilma fala sobre os personagens que marcaram sua carreira, como é atuar hoje e como o Clube faz parte de sua família.

AZUL RESPLENDOR 6 - DNG

Há 60 anos a carreira de atriz não era comum. Como a senhora chegou a essa profissão?

A minha formação eu devo aos meus pais. Meu pai e minha mãe tinham dons musicais muito fortes, como piano e canto, e sempre me proporcionaram aulas de piano, balé, violão e também canto. E, assim, fui me envolvendo com a questão artística. Por outro lado, os anos 1950 eram os tais “Anos Dourados”, quando todos os campos se abriam. Eu, embora já engatilhada na carreira de bailarina clássica, tendo sido contratada pelo famoso balé do IV Centenário de São Paulo, ao visitar o estúdio da Vera Cruz, com ensaios do Teatro de Arena, recebi convite para fazer trabalho de atriz.

 Nesse momento a senhora percebeu que seria atriz?

Comecei experimentando. O Teatro de Arena foi um grande ensinamento e o mestre José Renato, que trouxe essa escola teatral para o Brasil, já estava com um grupo itinerante, fazendo espetáculos em museus de arte moderna, lojas e fábricas. Ele me fez o convite, aceitei e peguei gosto.

Antes, qual era o seu contato com a profissão?

Assistia aos espetáculos no famoso TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, e gostava muito de ficar esperando os atores para cumprimentá-los, porque gostava de teatro, da arte de representar.

Como a senhora se tornou atriz profissional?

Um famoso ator, Renato Consorte, me trouxe um recado do Cassiano Gabus Mendes, dizendo que precisavam de mim. Naquela época, o encontro foi na TV Tupi, no Sumaré, era a primeira TV do Brasil. A Tupi começou no Brasil em 18 de setembro de 1950 e isso aconteceu em 1953. Lógico que o contrato para televisão eu fui dar para o meu pai aprovar, o famoso associado do Clube, que me levava pelo ombro. No mesmo ano, assinei contrato de dois anos com a Multifilmes, que era uma companhia sólida de cinema e que estava concorrendo com a Vera Cruz. Assim, assinei meus primeiros contratos, com a televisão e com o Teatro de Arena.

A bailarina e a atriz se cruzam algumas vezes?

De todas as professoras que tive, de voz, de corpo, de interpretação, uma famosa, que ainda está lecionando inclusive no Rio de Janeiro, dizia que falamos com o corpo inteiro. Então, o modo de expressão é com o corpo inteiro: voz, imaginação e, principalmente, estudo e dedicação.

A senhora começou no teatro e teve contato com o cinema e com a TV. Os três sempre estiveram ligados, desde o começo, na sua carreira?

Quando ouço alguém falando assim ‘ele é um ator de televisão’, ‘ela é uma atriz de cinema’..., eu respondo: ‘Não, não é nada, é só atriz’ (risos). Eu tive o privilégio, e talvez até mesmo por necessidade, pelo sustento da vida (Quando o Brasil entrou na guerra, os alemães sofreram muitas dificuldades. Meu pai, que era alemão, praticamente foi à falência e isso me ensinou a ir à luta pela sobrevivência), de, desde 1953, conseguir atuar nos três veículos: televisão, cinema e teatro. Porém, sempre digo, para qualquer ator ou atriz, que a escola do ator é onde ele está, de corpo inteiro, ao vivo, na presença do público. Nem precisa ser no palco, pode ser no teatro de arena, mas veja, conta é o exercício do ator, a escola é o exercício teatral.

O que faz a senhora aceitar um convite para o teatro, cinema ou TV?

A luta pela sobrevivência e também as minhas tendências e aspirações, porque, desde pequena, tive acesso a aulas de piano, violão, canto, balé, e isso estimula meu lado artístico.

A senhora imaginou que chegaria tão longe?

Não, fui sempre lutando pela sobrevivência e me realizando artisticamente. Um dia depois do outro.

Com tanto tempo de carreira, a senhora destacaria algum personagem marcante na sua trajetória?

Quem faz isso melhor é o público. Se você perguntar ao público, ele vai responder: ‘Nossa, na primeira obra, Mulheres de Areia, original, de 1973, o trabalho dela foi magnífico’, e foi mesmo. O público vai dizer: ‘Nossa, na A indomada, em que ela fazia aquela Oxente my God!, novela do Aguinaldo Silva, ela foi ótima. Tem, ainda, o programa Mulher, que se estendeu por dois anos e era da maior importância, até social, além de tantos teleteatros, seriados, como Os Maias, Esperança e tantos outros.

No teatro, quais trabalhos a senhora destacaria?

Em teatro, uma peça chamada Oh, que Delícia de Guerra, um musical, no Rio de Janeiro, que era meu sonho e que já tinha sido sucesso em São Paulo, com um elenco maravilhoso, durante nove meses. Naquela época eu estava no Rio e aí me convidaram para o elenco carioca.

Quem começou no teatro há tanto tempo, como é atuar, hoje, no Brasil?

É um heroísmo. O teatro, atualmente, só sobrevive à custa de patrocínios. Aí fica meio complicado, mas pelo menos sobrevive, porque a maioria dos espetáculos passou a existir só de sexta, sábado e domingo. Eu ainda estou com um espetáculo, que estreou há dois anos, o Azul Resplendor, e, agora, que tínhamos terminado a temporada, recebemos um convite, irrecusável, de levar esse trabalho para o norte, para Manaus, no aniversário da cidade.

Como atriz, profissionalmente, falta algo ainda a realizar?

Felizmente muitas coisas. Sempre acordo com estímulo para continuar minha carreira. Todos os dias, isso é uma paixão e é o que me move, me mantém viva. Continuo na TV e gosto muito.

Verdades Secretas, seu último trabalho na TV, também foi um marco na sua carreira?

O trabalho na mininovela Verdades Secretas foi uma proposta ótima e séria, porque acho que o caminho das novelas é esse, o de condensar. Não tem mais lugar para essas novelas que se esticam por seis ou oito meses. Acho que devem se condensar. Fiquei muito feliz com a proposta, com a personagem, o talento do autor, do diretor, do idealizador.

Quando se aceita um projeto, dá para imaginar a repercussão que ele terá?

Não. Sucesso é consequência de muito trabalho, talento e perseverança. Não dá para imaginar nada é só querer acertar e ter uma proposta séria de fazer um bom trabalho.

Sobre o Pinheiros. Qual a sua relação com o Clube?

Na época em que frequentávamos o Pinheiros, eu pequenininha, São Paulo terminava no Jardim Europa. O meu pai me punha no ombro dele, eu com um ou dois anos de idade, e caminhava comigo pelo mato para chegar até o então Sport Club Germania. Foi nas piscinas do Pinheiros que meu pai me ensinou a nadar. Tenho fotos dessa época.

A senhora também passou essa vivência para os seus filhos?

Sim. E foi mais intensa ainda por causa do Jardim de Infância. Meus dois filhos estudaram na Escolinha. E aí tenho recordações lindas de levá-los, no primeiro dia do ano, e depois buscá-los. Tenho uma recordação muito engraçada. A Escolinha tem isso da mãe ficar na janela no primeiro dia e fiz isso com minha filha mais velha. Quando chegou a vez do meu filho, eu já pronta para acompanhá-lo, ele desceu do carro, falou ‘tchau’, bateu a porta e foi embora (risos). Eu acho esse fato gostoso de contar.

E hoje, a senhora frequenta o Clube?

Hoje, para mim, é muito importante ver os meus netos participando de eventos especiais no Clube. E olha que são cinco. Acho muito bonito, no Pinheiros, as iniciativas de apoio às artes. Os grupos de canto, teatro. Se eu não estivesse tão ocupada no meu lado profissional, viajando e tudo mais, estaria no Clube também dançando e representando.

 

Foto: divulgação/ João Caldas