Palavra Cantada
O som que encanta

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Pela procura, já no primeiro dia de venda dos ingressos para o show da Palavra Cantada, aqui no Clube, é possível imaginar o tamanho do sucesso que o grupo faz com a criançada e, também,com os pais.

Em duas décadas dedicadas à criação de canções infantis, o grupo tornou-se sinônimo de qualidade dentro do gênero. Idealizado pelos músicos Sandra Peres e Paulo Tatit, a Palavra Cantada nasceu com a proposta e a preocupação de criar letras, arranjos e gravações que respeitem a inteligência e a sensibilidade dos pequenos.
A discografia já conta com 13 CDs lançados, seis deles agraciados por prêmios importantes, como
o da Sharp. DVDs, programas de rádio, trilhas sonoras e livros, também marcam a carreira do grupo.
A Revista Pinheiros visitou o ateliê da Palavra Cantada, no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo,
para conversar um pouco sobre a importância da música na infância, a carreira do grupo e o que os pinheirenses podem esperar do show, no Salão de Festas.

 

Recentemente, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos comprovou que a música traz diversos benefícios para a criança. Como vocês enxergam esse resultado?

Paulo Tatit: Nós, que trabalhamos há anos com crianças, temos contato com várias mágicas que a música produz nelas. A canção tem o dom de pegar uma criança hiperativa, que não consegue parar quieta um minuto, e hipnotizar.
Vejo, nos shows, uma criança ficar uma hora em pé, sem abrir a boca. É um negócio emocionante, porque somos acostumados com o efeito corporal da criança, desde cedo, quando o bebezinho vai até a caixa acústica e fica balançando o corpo, mas também existe o efeito mágico de parada
da criança.

 

A que se deve essa mágica?

Paulo Tatit: É o efeito da palavra cantada (risos). A palavra associada a uma melodia ganha uma estranheza e uma grandeza que impressionam. Imagina todo o vocabulário que a criança conhece por meio da música. Começa a ter outra dimensão.

 

Sabendo desse efeito, quais são os cuidados na hora de fazer música infantil?

Sandra Peres: É como se estivéssemos entregando uma comida e nenhum ingrediente pode estar ruim, para não causar estranheza dentro daquela criança. Música é um mantra. Assim como a criança repete o que o pai e a mãe falam, ela repete o que aprende em uma canção. Então, temos uma responsabilidade imensa com os ingredientes que colocamos nessa sopa.

 

Para o músico é mais “leve” fazer música para criança?

 Paulo Tatit: O bom de fazer música para criança é que você não tem pré-concepções. Você não está fazendo um disco de pagode ou de bossa nova. É uma oportunidade de criar um trabalho que você nunca criou e ir para um lugar diferente. O músico pode experimentar mais.

 

Essa técnica é mais fácil ou mais difícil?

Sandra Peres: Como estamos no grupo Palavra Cantada há 20 anos, isso é natural. Sempre fizemos assim. É o jeito que sabemos de fazer música.

Paulo Tatit: Uma coisa legal que eu e a Sandra fazemos muito é viajar e ver trabalhos de fora. Não ficamos somente assistindo a musicais para criança, vamos a espetáculos da Pina Bausch e de outros mais. Isso cria critérios e um tipo de ansiedade para trazer para o nosso trabalho.

Sandra Peres: Também amplia o nosso universo crítico e artístico. Não colocamos qualquer coisa no nosso show. Sempre tem uma razão e essa ambição faz muita diferença no resultado.

 

Como os pais podem identificar um bom trabalho musical para o filho?

Paulo Tatit: Não sei como, mas eles conseguem perceber. O mesmo pai que vê TV e gosta da música massificada, consegue perceber uma coisa diferente no trabalho de qualidade.
Tem pais, que você percebe que são bem simples, que chegam e falam: ‘Nossa, o trabalho de vocês é cultural, né?’. É muito normal a gente ouvir que é educativo, porque eles percebem um valor a mais.
Sandra Peres: Eles também percebem que estão levando para casa um trabalho que a criança não tem normalmente.
São conceitos que, na educação e no dia a dia nesta casa, são valorizados.

 

Como vocês definem o trabalho da Palavra Cantada?

Sandra Peres: Transcendental e experimental.
Paulo Tatit: No meu caso, se tiver sensibilizado uma criança para a música já valeu a pena. É muito gratificante conseguir criar critérios para uma criança. Adoro quando uma pessoa não consegue explicar porque gosta da música, ouve várias vezes, mas não sabe explicar o porquê.

 

Qual é a principal diferença da Palavra Cantada para outros grupos de público infantil?

Paulo Tatit: O que mais distingue o nosso trabalho é a parte melódica. As ideias das letras não são tão diferentes, no geral estamos falando de uma história engraçada, para crianças.
Raramente, você consegue um tema extraordinário igual bolacha água e sal. Foi um tema que a gente achou e foi muito legal, mas a melodia é que leva para outro lugar.

 

Existe uma preocupação com o diferencial. A Palavra Cantada evita fazer o que já foi feito?

Paulo Tatit: Eu tenho essa preocupação. Quando percebo que estou fazendo uma coisa que já foi feita, fico desestimulado.

 

"Música é um mantra. Assim como a criança repete o que o pai e mãe falam, ela repete o que aprende em uma canção.”

 

Sandra Peres: Não gostamos do lugar comum, da música massificada. Isso faz parte da nossa responsabilidade. Se a criança só costuma comer maçã e a gente fica dando maçã, ela não vai conhecer as outras frutas. Por isso, procuramos incrementar o cardápio, pois isso não desenvolve nem o gosto e nem a percepção musical da criança e nada nos acrescenta.

 

No show de vocês, 70% das músicas são as mesmas? Como é cantar o mesmo repertório há anos?

Sandra Peres: Eu aprendi uma vez com Gilberto Gil. Estávamos ensaiando com ele e com algumas crianças a música Andar com Fé, eu nunca vou esquecer.
Não sei se ele estava cantando, naquele ensaio, como se fosse a primeira vez ou como se fosse a última da vida dele.
Toda vez que fico com preguiça, e dá preguiça sim, tento ocupar um outro lugar dentro de mim para colocar uma nova energia. Sempre lembro dessa passagem do Gil, porque senão a música vira um lamento, uma ladainha sem emoção.

Paulo Tatit: Mas é bom a gente mudar o arranjo, às vezes, e experimentar coisa nova. Isso é gostoso.

 

Vocês se sentem um pouco formadores de público, já que são 20 anos de trabalho?

Sandra Peres: Como ampliamos o universo musical pelo que oferecemos nos arranjos, na nossa proposta como música, eu quero acreditar que isso tenha deixado os ouvidos das crianças mais apurados, a ponto delas desenvolverem um gosto musical. Tomara que não estejamos enganados. (risos). No fundo esse é o nosso grande desejo.

 

Além do talento do grupo, a que mais vocês atribuem o sucesso da Palavra Cantada?

Paulo Tatit: A sociedade mudou um pouco em relação à visão da criança. Antigamente, se você for pensar, quando eu era criança nos anos 60, a criança tinha de ir bem na escola e pronto. Hoje não. Os pais querem que elas tenham uma formação. Existe uma dedicação de tempo muito grande. Imagina se um pai ia ficar horas com o filho, atravessar a cidade, pagando não sei quanto para ver um show? Não existia essa possibilidade. Mas, a sociedade foi se sofisticando nessa parte da formação da criança e a Palavra Cantada meio que coincidiu com esse momento.

Sandra Peres: Estava ouvindo o Paulo falar e fiquei pensando em mim. Não tive filhos, foi uma opção, mas acho que somos de uma geração que percebemos o nosso próprio vazio. É o vazio
que muitas vezes nós vivemos na nossa infância, mesmo com pais tão amorosos como foram os meus, a boa escola, as aulas de música. Mas, quando a gente foi percebendo o nosso próprio vazio, fomos querendo preencher, fazer com que a criança não vivesse como vivemos, com um vazio cultural. Na minha época, a religião tinha esse papel, mas não era uma coisa que a criança escolhia.