“‘SÊ TODO EM CADA COISA. PÕE QUANTO ÉS NO MÍNIMO QUE FAZES’,
CITAÇÃO DE FERNANDO PESSOA, QUE USO COMO LEMA"

Esse pensamento, do escritor português, define bem como é a vida de Angelita Gama, talento da medicina mundial. Com mais de 50 anos de carreira, já recebeu diversos prêmios importantes, como o Mulheres Mais Influentes Forbes Brasil 2006, pela Revista Forbes Brasil, além de ter publicado vários artigos científicos. Conhecida no exterior por suas aptidões profissionais, foi com muito esforço que chegou ao sucesso.entrevista
Sempre estudando e trabalhando, Dra. Angelita dá tudo de si para estar sempre se aperfeiçoando em seu ofício. Em entrevista à Revista Esporte Clube Pinheiros, conta como se decidiu pela atual profissão, quais foram os principais desafios e como foi o seu caminho de vitórias. Além disso, ela fala sobre a relação que tem com o Pinheiros, no passado e no presente. Confira.

Como a senhora decidiu que queria ser médica?

Nasci na Ilha de Marajó e vim para São Paulo com 7 anos. Em São Paulo, cursei apenas  escolas públicas, que eram excepcionais, naquele tempo. Fiz o Curso Científico: tinha facilidade para estudar e sentia que minha vocação seria na área biológica. Terminei,
influenciada pelo meu grupo de voleibol, que queria fazer medicina, porque a maioria tinha médico na família. Não era este o meu caso, meus pais eram imigrantes libaneses, com posses limitadas. Mas isso não foi problema porque sou otimista e quando tomei a decisão de ser médica, me preparei, consegui ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em 8º lugar, e fui ao encontro de minha verdadeira vocação. Sempre tive segurança de ter tomado a decisão certa

E quanto à especialização, como foi essa escolha?

O sexto ano do Curso de Medicina da USP é realizado sob a forma de internato quando o acadêmico faz rodízio pelas diferentes especialidades e tem a oportunidade de sentir qual é sua vocação dentro da medicina. Minha ideia era seguir a Clínica Médica. De início, a cirurgia não me interessava muito, porque, naquela época, não era especialidade para mulher. A maioria se dedicava à clínica ou ginecologia. Mas, ao participar de uma operação, o cirurgião titular me deu uma agulha, para eu fechar a parede abdominal, e senti que o ato de operar era natural para mim, e que eu poderia me desenvolver nesta especialidade que demanda, além de habilidade manual, muito estudo e treinamento, rapidez de decisão,otimismo e energia. Enveredei por este caminho e tive a felicidade de desenvolver meu verdadeiro dom.

Sendo uma das mulheres mais expressivas da medicina mundial, como é ser tão conhecida?
Penso que o reconhecimento de nosso trabalho é sempre muito gratificante e traz grande responsabilidade também. Reconheço que o sucesso não se obtém sozinho. Tive a sorte de casar com Joaquim Gama Rodrigues, cirurgião do mesmo nível universitário e profissional, que sempre colaboroucom todas as minhas atividades. Constituímos um grupo de assistentes que trabalha intensamente para que tenhamos os melhores resultados dentro de nossa profissão, bem como publicamos muitos trabalhos científicos que divulgam nossos estudos e pesquisas. Não me envaideço de ser tão conhecida. Acho que tudo resultou de muito trabalho e que considero como “hobby”, me faz bem. Não mudei em nada, considero-me igual a meus pares.

Qual é o segredo do sucesso?
Dedicação absoluta, entusiasmo pela profissão, busca incansável pelo aprimoramento e atualização por meio de pesquisas, de novas tecnologias e de novos tratamentos. Cito sempre uma frase de Fernando Pessoa, que uso como um lema na vida: “Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes”

A senhora foi a primeira mulher a fazer cirurgia no Hospital das Clínicas. Que tipo de dificuldades enfrentou na profissão, por ser mulher?
Na faculdade e, depois, já como cirurgiã, eu tinha um enorme entusiasmo. Para demonstrar que tinha capacidade de vencer como cirurgiã, sempre trabalhei mais do que a média dos que trabalhavam bem. Eu me mantenho entre os melhores do meu setor, porque continuo trabalhando muito. Não foi fácil aqui no Brasil e foi ainda mais difícil no exterior. Na Inglaterra, em 1961, o Saint Mark’s Hospital levou dois anos para me aceitar. Diziam que aquele era um hospital de homens. Consegui liderados por mim e por Joaquim Gama  Rodrigues, meu esposo. Recebemos estagiários, tanto do Brasil como de diferentes países latino-americanos e de todos os outros continentes, que acompanham nossa atividade cirúrgica, as reuniões multidisciplinares e colaboram nos trabalhos científicos.

Como está o aparelho digestivo do brasileiro? Nossa alimentação vai bem?
A alimentação é um importante fator na  prevenção das doenças, em especial do aparelho digestivo. Foi observado que o alto consumo de fibras de frutas e vegetais, assim como de cálcio, vitamina D, folato e alguns antioxidantes e minerais, apresenta um caráter protetor
para neoplasias colorretais, ao contrário de dietas ricas em gordura e calorias, que aumentam o risco. Penso ser muito importante a realização de campanhas educativas sobre hábitos saudáveis de vida e de boa alimentação. Fundamos, em 2004, a ABRAPRECI - Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino, que tem alimento, rico em proteínas e fibras, e existem muitas verduras e frutas com custo acessível à população.

Como a senhora faz para conciliar vida pessoal e profissional?
Não é fácil, já que tenho uma rotina de trabalho pesada. Faço cirurgias durante o período da manhã e atendo no consultório, à tarde, até, em média,21 horas. Costumamos jantar fora de casa, aos sábados e domingos, e gostamos de cinema, teatro e música clássica.

Já foi praticante de Vôlei no Pinheiros. Conte sobre essa época.
No Clube Pinheiros, costumava fazer treinos e disputar partidas de Voleibol. Passei a jogar Tênis depois, em 1965.

Qual é a sua relação com o Clube hoje? E no passado?
Dispensamos muito tempo com nossa atividade profissional, restando pouco tempo para o esporte. No passado, exercíamos atividade física regular e com um grupo de colegas fundamos um Clube de Vôlei, o ADAMUS. Treinávamos com frequência no Pinheiros. Eu era tão fã do Clube que meu maior sonho era o de morar nas proximidades, sonho este que concretizei anos mais tarde, quando nos mudamos para a Rua Tucumã. Após o casamento com Joaquim Gama, que praticava Tênis, me entusiasmei por este esporte e passei a ter aulas no Pinheiros, às 6 da manhã. Disputei muitos jogos como principiante, passei para a 4ª classe e acabei na 3ª classe. Joguei muito tempo e frequentávamos o Pinheiros regularmente, inclusive participando de atividades sociais. Atualmente, mudamos de residência e vamos pouco ao clube, apesar de considerá-lo um dos melhores, em São Paulo. Frequentá-lo sempre foi muito agradável e compensador, por suas excelentes instalações, facilidades e padrão de convívio tranquilo. Temos planos de retornar e desfrutar esse prazer.