“TENHO EM MEU PAI UM GRANDE CONSELHEIRO. PODEMOS DISCORDAR, MAS NUNCA DEIXO DE OUVI-LO.”

Marcos Caruso é múltiplo. Autor, diretor e ator, o pinheirense já inscreveu seu nome na história da arte brasileira. Para ser ter uma ideia, a peça de sua autoria, “Trair e Coçar é só Começar”, está em cartaz há quase 30 anos, com apresentações ininterruptas, e já foi vista por mais de 6 milhões de espectadores. Na Televisão, como ator, já viveu papéis marcantes, como Leleco, de Avenida Brasil, e Alex, de Páginas da Vida. Este mês, o associado volta ao horário nobre para viver o Feliciano, na novela A Regra do Jogo.

Aproveitamos o momento para conversar sobre o novo trabalho e revelar o lado família do Caruso. Com pai e filhos associados, o artista falou da importância do Clube para a família e o amor que passa de pai para filho. Confira:

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Foto: Reinaldo Vieira Ortlieb

Este mês, você volta às novelas com o personagem Feliciano. Ainda surge a ansiedade da estreia ou com o tempo ela muda?
A sensibilidade é a matéria-prima do meu trabalho. O dia em que não sentir mais o frio na barriga diante dos desafios é sinal de que me tornei insensível.

Como fica sua rotina quando tem um personagem no ar?
As gravações de uma novela são extremamente intensas. Devemos estar à disposição da televisão 24 horas por dia, sete dias por semana. Uma chuva forte interfere num plano de gravação, a febre de um profissional pode cancelar uma cena externa noturna, são 40 cenas diárias a ser gravadas e o capítulo no fim da noite tem de ir para o ar. Não temos sábados, domingos ou feriados. Difícil marcar um médico ou dentista e nossos parentes têm de estar muito preparados para nos ver só oito meses depois.

Entre os mais diversos trabalhos que você realizou, o Leleco, de Avenida Brasil, marcou sua carreira. Qual a importância desse personagem para você e como você se desfaz de um sucesso tão grande para entrar em um novo projeto?
Avenida Brasil foi um importante trabalho para todos da equipe da novela. Para mim, foi um divisor de águas. Antes era visto como um senhor de 60 anos, mais afeito a papéis dramáticos. O Leleco me deu a chance de fazer humor na TV e mostrar que podemos estar bem fisicamente, apesar de já termos chegado à terceira idade. E como um personagem termina quando acaba um trabalho, não tenho dificuldade alguma em esquecê-lo profissionalmente. Essa é a minha função como ator.

O que o sucesso mudou de concreto na sua vida e na sua carreira?
O sucesso faz com que passemos de observadores a observados. O ator é um curioso, deve estar com um olhar atento a tudo e a todos, pois é daí que ele retira elementos para a construção dos seus personagens. Quando somos desconhecidos podemos fazer isso com tranquilidade. Quando nos conhecem, a um olhar nosso, nos deparamos com o olhar do outro e isso nos intimida. Isso mudou na minha vida: não sou mais livre para observar.

São mais de 40 anos de carreira, 15 novelas, 2 minisséries, 11 filmes, 35 peças. O que você acha que marca essa trajetória artística?
A vontade de querer sempre saber mais. Não me contentar com o que já sei.

Você se lembra como ou por que começou a colecionar as funções de autor, diretor e ator?
Quando tinha seis anos, imitava minha avó, que era costureira e fazia bonecos de fantoches com retalhos de fazendas, linha e agulha. Comecei distraindo as freguesas que esperavam pela prova dos vestidos, na antessala do ateliê da minha avó. Aí nasceu o ator, o roteirista (as histórias eram inventadas por mim), o diretor, o cenógrafo, o figurinista…etc. Ali nasceu o artista.

Como um Bacharel em Direito, formado no Largo São Francisco, se torna artista?
Não foi o Bacharel que se tornou artista. Foi o artista que, por ter um pai cuidadoso, que queria um futuro mais seguro do filho, acabou cursando Direito. Desde o início da faculdade eu já sabia que não exerceria a profissão de advogado. Mas, ela foi importante para a minha formação intelectual.

Como foi o momento em que você falou que queria ser ator e como era a sua relação com seu pai?
Acho que nunca disse ao meu pai que queria ser ator. Ele foi me vendo ser. E nunca interferiu, nunca proibiu, nunca foi contra, apesar da profissão não ser regulamentada naquela época e isso dar uma sensação de insegurança. Lembro que tivemos um diálogo e ele mostrou sua preocupação com esse fato e eu o compreendi. Sempre tive com meu pai uma relação de muita sinceridade e diálogo.

Você não teve a figura materna, isso mudou alguma coisa na relação pai e filho?
Perdi minha mãe com dez dias de vida, não sei como teria sido viver a três. Vivendo apenas com meu pai, claro, de alguma forma ficou em mim a carência materna e nele a sensação de que sempre poderia ter feito mais para supri-la, mas isso nunca foi contabilizado. Somos muito unidos e nos tornamos muito amigos.

O que você aprendeu com ele que usa até hoje?
Tenho em meu pai um grande conselheiro. Podemos discordar, mas nunca deixo de ouvi-lo. Recebi dele enormes ensinamentos como ouvir e ponderar, medir as responsabilidades e consequências dos compromissos, ter princípios éticos, criar objetivos sólidos, proteger o outro, ser previdente e, principalmente, fraterno.

Quando seu filho falou que seria cineasta como foi a sua reação?
Apoiei integralmente, pois percebi desde criança que ele tinha talento para isso. Devemos estar atentos aos talentos das crianças e incentivá-las a encontrar o que as fará felizes

Que tipo de pai você se considera?
Um pai presente. E, acima de tudo, amigo. Nunca proibi. Sempre incentivei o livre arbítrio. Nunca disse ao meu filho “não pode”. Sempre disse “não deve”. Poder é usar o livre arbítrio, dever é usar o discernimento.

Na sua separação, você pediu para ficar com os filhos. Você sempre quis ser pai?
Sempre. Foi uma separação decidida com amor e amizade. Eu não saberia ficar sem ter de quem cuidar.

Como é a relação de vocês três?
A melhor do mundo. Nos amamos muito.

Os três são associados. Chegaram a frequentar o Clube, os três juntos, em algum momento?
Sempre. O Clube sempre foi o quintal da nossa casa, morávamos na Rua Tabapuã. E, ainda hoje, frequentamos muito, temos lá grandes amizades e respeito por cada centímetro daquele chão.

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As quatro gerações Caruso: Marcos, Caetano, Bento e Alberto (da esquerda para a direita). Foto: arquivo pessoal.

Morando no Rio de Janeiro e em São Paulo, como é a sua rotina hoje?
Moro a 800 km do meu trabalho (400 ida, 400 volta) e não dá para voltar para casa todos os dias. Fico no Rio dois terços do mês e o outro terço em São Paulo. Amo a minha cidade e aqui estão meu pai Alberto e minha mãe Silvia. Tenho sempre de voltar para a minha praia que, no caso, é em São Paulo.

Você lembra quando o Pinheiros entrou na sua vida?
Desde que nasci. Fui aluno da Escolinha (aliás, eu, meu filho e minha neta), fui criado nas piscinas (a grande ainda com escorregador), tive aulas de Natação com o professor Montag, de Tênis com o Gabriel, joguei Basquete, namorei muito nos mingaus dançantes e sessões de cineminha, aos domingos, no Salão de Festas, pulei muitos carnavais, desfilei em vários sete de setembro e vi muito show de aqualouco nos trampolins. Tenho 63 anos de Clube, muito bem vividos.

Qual a importância do Clube na sua relação com seus filhos?
Total. O Clube deu a eles o exercício da liberdade. Frequentavam diariamente. Fizeram CAD, Escolinha da Tia Lucy, Natação, Basquete... Passar um dia na semana sem vir ao Clube era impensável.

Tem algum episódio marcante da sua vida que tenha ocorrido no Pinheiros?
Contam que quando minha mãe faleceu, o Clube baixou a bandeira a meio pau em sinal de luto.

No livro de Eliana Rocha, o título é: 'Marcos Caruso - Um Obstinado'. Você concorda?
Acredito que só os obstinados vencem. É a obstinação que me trouxe até onde estou e é ela que vai me levar à conquista dos meus próximos objetivos.