"ENTRE COMPOR, GRAVAR, DIVULGAR, O QUE MAIS GOSTAMOS DE FAZER É PISAR NO PALCO"

Há mais de 30 anos à frente da banda Capital Inicial, com quase 20 álbuns lançados e responsável por sucessos que marcaram a vida dos fãs, Dinho Ouro Preto tem muito que comemorar. Os trabalhos da banda de rock sempre foram do romântico à crítica social, como no último EP, Viva a Revolução, que captou o momento político da época, ao se inspirar nas manifestações de junho de 2013.
Em uma conversa descontraída com a Revista, o colecionador de tatuagens e de camisetas de banda fala sobre a carreira como vocalista e o que os fãs pinheirenses podem esperar do show do Capital Inicial, no Rock & Dance, dia 11 de abril.

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Em 2014, a banda lançou um novo EP: Viva a Revolução. Qual a diferença desse trabalho para os outros?
São seis músicas nesse EP, que saiu há alguns meses. Nos últimos cinco anos, esse é o terceiro lançamento da banda Capital Inicial. Lançando discos de um modo tão frequente, fiquei preocupado em, de algum modo, estabelecer algumas diferenças. Então, nós procuramos, por exemplo, parceiros com quem nós nunca tínhamos trabalhado: fizemos duas músicas com o Tiago Castanho, que era do Charlie Brown Jr., e uma música com um grupo de hip hop do Rio de Janeiro. Procuramos outro produtor com quem nunca tínhamos trabalhado, o Liminha, que já produziu Paralamas do Sucesso e Titãs, quase todos do rock brasileiro. Tudo, na verdade, foi diferente: outro produtor e outros parceiros. Até o formato do disco é diferente. É um EP conciso, com seis músicas, que giram em torno do mesmo tema: as manifestações de junho de 2013. Umas músicas mais reflexivas, outras poéticas, mas todas abordando o mesmo tema. Procuramos outro fotógrafo para fazer a capa. Até o cara que faz o conteúdo do telão, durante os shows, é um outro sujeito. Embora Capital Inicial já tenha uma cara, uma personalidade, existe essa elasticidade, para variar e apresentar algo um pouco diferente. Ouvindo o disco, dá para reconhecer a banda ali, mas com outro tempero.

Como surgiu a ideia do tema do CD, inspirado na onda de manifestações de rua ocorridas no Brasil em junho de 2013?
Não foi deliberado. Na verdade, fui escrevendo algumas coisas depois de Junho. E, no final, vi que eu tinha um punhado de músicas que abordavam o tema. A partir daí, percebi que elas podiam ser compiladas em um só disco e não diluídas em um álbum com outras músicas que falassem de outros assuntos. O que aconteceu em Junho foi algo intenso e outras bandas também acabaram fazendo trabalhos em cima disso. Mas não foi algo que eu pensei: “Vou sentar e escrever músicas sobre isso”. A composição acaba virando um hábito, você nunca para. Pelo menos comigo é assim. Percebi que tinha várias músicas sobre o mesmo tema e resolvi colocar nesse EP. Eu gostei disso ter sido espontâneo.

A participação política dos artistas de rock está diferente? Como você vê essa relação?
Acho que, com o tempo, as pessoas se afastaram um pouco do assunto, talvez. Isso está muito presente nas bandas de Brasília, ao menos nas da minha geração. Também tem a influência da época em que crescemos. No entanto, hoje vejo essas bandas novas crescendo em outra atmosfera política. Talvez isso, por sua vez, tenha levado muitas bandas a ignorar um pouco esse tema: elas viveram em um Brasil mais otimista do que o da nossa época. Mas olha o que está acontecendo agora: o clima político tóxico em que estamos vivendo, possivelmente leve outras bandas a escrever música sobre política. As bandas acabam sendo um reflexo do seu tempo. Acho que é muito difícil alguém que está compondo ou tocando, hoje, ficar alheio às dificuldades.

Com mais de 30 anos de carreira, o que mais motiva a banda a subir ao palco, a cada apresentação?
Olha, de tudo o que envolve o que fazemos, entre compor, gravar, divulgar, o que mais gostamos de fazer é pisar no palco. É o nosso ambiente natural, onde nos saímos melhor. Tenho muito prazer em tocar e o meu estímulo maior é isso. Acho que no momento em que eu passar a ver com indiferença um show ou uma turnê, na cidade ou no interior, é hora de parar. Tenho um entusiasmo em tocar, adoro, é um privilégio para mim. Eu me dou conta que poucos artistas têm carreiras tão longas. Já estou há 30 e poucos anos tocando. Agradeço aos nossos fãs.

A banda começou em 1982 e tem quase 20 álbuns lançados. Você imaginava que fosse chegar tão longe? Como você lida com o sucesso?
Quando a gente começou, nunca achamos que íamos gravar. É curioso como as coisas foram acontecendo passo a passo. Quando começamos, em Brasília, minha geração era despretensiosa, ninguém tocava pensando em carreira, era tudo entretenimento. O rock’n’roll, naquela época, não tocava na rádio. Nosso público eram as outras bandas. Talvez essa inocência e despretensão sejam alguns dos motivos pelos quais tudo deu certo. Quando a gente começou a banda, não pensávamos que alguém pudesse se interessar em nos convidar para gravar. Uma vez gravado o primeiro disco, não pensamos que as pessoas iam querer um segundo disco. E assim por diante: fomos sendo surpreendidos pelos acontecimentos. Ainda mais chegar até onde chegamos: 30 anos depois. A gente tocou no Rio de Janeiro recentemente e era só garotada. Esse público se interessa pela música brasileira, procura as letras, canta os hits. Eles devem ver na internet. E a maioria deles nem era nascida quando essas músicas foram feitas.

A banda Capital Inicial de hoje é melhor do que a do início da carreira?                        Ao longo dos anos você vai tendo, por exemplo, um domínio maior sobre o seu instrumento. Talvez você perca um pouco a espontaneidade, a despretensão. Talvez você não tenha mais como ter isso, porque já está tocando há muito tempo, já é um profissional mais velho. No entanto, você toca melhor, consegue direcionar sua produção para onde você quer. E, ao longo dos anos, essa experiência tem um grande valor.

Como foi ser jurado do Superstar?
É difícil você estar ali como jurado. Quem sou eu, afinal de contas? Eu sempre tive uma tendência a ser condescendente com os meus pares, pegar leve. Eu sei quais são as dificuldades em uma carreira. Mas ali o meu papel era esse. Houve esse aspecto. O outro lado da moeda é que nós somos procurados, sempre nos pedem conselhos sobre qual é o caminho das pedras. Isso sempre aconteceu ao longo dos anos. Eu vi o Superstar como uma oportunidade de dar esses conselhos em escala muito maior, para milhões de pessoas.

Existe alguma diferença nos shows que vocês realizam em Clubes? O que os pinheirenses podem esperar da apresentação no Rock & Dance?
Os associados vão ter um show completo. Cresci ouvindo rock e gostava tanto da música quanto do que os artistas bolavam para os shows, para se ver como espetáculo. A banda Capital Inicial, a cada turnê, sempre bola o que vai apresentar. O que é apresentado é visualmente muito bonito. Quanto à música em si, é um apanhado de tudo: tem tanto as músicas do disco novo quanto um pouco de tudo o que foi feito ao longo desses 30 anos. E a gente também toca músicas de outras bandas. Os associados também vão ver esse entusiasmo ao qual me referi, que a gente sente prazer em estar ali, realizados, em pisar no palco.