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Antonio Pecci Filho é um dos nomes mais importantes da Música Popular Brasileira. Toquinho, como ficou conhecido, já compôs com Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Jorge Ben Jor, entre outros medalhões da MPB. Com mais de 50 anos de carreira e verdadeiros clássicos no currículo, o cantor, compositor e instrumentista é um eterno aprendiz. Em entrevista à Revista Pinheiros, o artista conta sobre seu estudo diário de violão, a geração marcada pela Bossa Nova, a nova cena de músicos brasileiros e o show especial que fará no Clube.

Você faz parte de uma geração que continua criando e trabalhando muito, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. O que caracteriza esses artistas que mantêm sua música até hoje?

Somos parte de uma geração privilegiada que iniciou a carreira ao longo dos anos de 1960, época durante a qual despontaram inúmeros talentos especiais nos vários setores das artes no Brasil. Na música, somos herdeiros da Bossa Nova e desenvolvemos nossa obra musical influenciados pela estrutura melódica, rítmica e poética evidenciada nos elementos essenciais de nossas composições. Há uma beleza intrínseca em nossas canções que se renova a cada geração.

Como sua música conversa com diversas gerações?

Sempre procurei fazer uma música que não fosse hermética, buscando uma simplicidade que acabou se tornando especial e me caracterizando com um estilo muito próprio dentro da música popular brasileira. Minhas melodias são populares e cantáveis, pois nunca gostei de fazer coisas que as pessoas tivessem difculdade para cantar. E ao mesmo tempo são bem trabalhadas, das quais ninguém pode falar nada musicalmente. Tudo sai certo, não deixo passar nada, cada coisa está no seu lugar. Faço shows em teatros, ginásios e praças públicas e sempre fui aceito em todas as classes sociais, felizmente.

Quando você começou esperava trabalhar por tanto tempo com arte?

Cresci cercado por música. Meu pai comprava discos de todos os gêneros, desde Luiz Gonzaga até Chopin. Ouvia tudo: Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Orlando Dias. Depois passei a ouvir também Dick Farney, Lúcio Alves e Maysa. Até que surgiu João Gilberto e eu me apaixonei pelo violão. Simbiose autêntica e definitiva entre mim e o instrumento. Logo percebi que a música seria meu caminho e o tempo se encarregou de confirmar cada vez mais esse propósito.

Com 82 discos, mais de 450 músicas e cerca de 10.000 shows, qual é o desa´o atual de fazer música?

O maior desafio é o natural e inevitável senso de crí- tica, pois diante de tudo o que já se fez, a originalidade tende a ser garimpada com mais critério. Parece que ela se esconde, como aquela pedrinha de diamante confundida entre outros minerais. Mas acaba prevalecendo o despojamento para os improvisos, a busca da simplicidade e o deixar-se levar pelo lugar comum, inevitável caminho para o sucesso. E se descobrem verdadeiras pérolas musicais.

Você estuda violão todos os dias?

Estudo todos os dias durante várias horas. O violão exige destreza, principalmente na agilidade da digitação e na manutenção do som puro, qualidade que só se mantém com dedicação e aprimoramento.

Como você faz para se apurar também como compositor e intérprete?

O compositor depende da habilidade e da intuição do instrumentista na percepção imediata da melodia, como se desfrutasse de um estado de graça celestial, aliada, essa percepção, à observação constante das emoções vividas no dia a dia. Minha inspiração continua brotando do cotidiano, das reações das pessoas e do que a vida me proporciona. Cada acorde novo é o reÔ exo de uma percepção, de uma frase, de um gesto, de uma palavra, que leva a uma nova composição. Assim, uma coisa complementa a outra na junção entre melodia e poesia. Quanto ao intérprete, o tempo se incumbe de aprimorá-lo.

Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Jorge Ben Jor, Paulinho da Viola são só alguns dos seus parceiros. Como surgem e qual a importância desses encontros na sua vida?

O principal fundamento das parcerias é a amizade e a consequente sintonia artística. Há que haver um casamento, como dizia Vinicius. Uma divisão das tarefas e dos talentos. Quanto a isso tudo, sou privilegiado por ter encontrado parceiros tão amigos quanto talentosos, que conviveram e convivem comigo o prazer do artesanato da composição, na junção exata entre acordes e palavras. Esses parceiros contribuíram decisivamente para meu crescimento artístico e pessoal e são parte fundamental na constância de minha carreira.

Quando compôs “Aquarela” imaginava que seria um clássico?

A melodia de “Aquarela” foi composta em menos de quinze minutos, em parceria com Maurizio Fabrizio, um músico italiano. Não tinha como saber que alcançaria a dimensão de popularidade que alcançou, tornando-se um sucesso internacional. A letra é muito longa e sua temática é abordada de uma forma drástica e realista, prognosticando que na vida tudo perde a cor, tem um ‘ m. Mesmo assim, as imagens criadas na confecção da letra levaram a uma interpretação lúdica, de conteúdo inventivo e sonhador. Prova disso é que se tornou uma das canções mais requisitadas pelas crianças. “Aquarela” é uma canção mágica, daquelas que surpreendem e encantam, já prenunciando que permanecerá ao longo do tempo sem se descolorir.

Seu último disco de música inédita foi “Quem Viver Verá” (2011). Você sente alguma difculdade em lançar músicas novas?

Jamais tive pressa em lançar produções inéditas, sigo o curso da minha criatividade. O lançamento de um álbum novo envolve fatores que extrapolam a criação de novas canções. Tenho viajado muito com shows pelo Brasil e Exterior e o tempo necessário para a concentração musical fica reduzido, apesar de me dedicar diariamente ao meu violão, trabalhando com afinco temas novos e harmonias.

O que você escuta da nova MPB?

Apesar de seu dinamismo, a MPB vive um período de carência de talentos capazes de se confirmar no cenário musical brasileiro. Com algumas exceções, é o que acontece no Futebol. Mas o Brasil é muito musical e a efervescência de novos talentos e tendências é enorme e disforme. Sempre estive atento aos novos valores da música brasileira e gosto de tê-los ao meu lado nos shows, o que acontece desde minha parceria com Vinicius, que era mestre nessa experiência de descobrir talentos e trabalhar com eles. Tenho convidado para meus shows figuras femininas que encantam pela performance, afinação e versatilidade, como Badi Assad, Verônica Ferriani, Dora Vergueiro, Anna Setton e, mais recentemente, Camilla Faustino.

O show no Pinheiros será um espetáculo ao mesmo tempo grandioso e intimista. Como é criar essas duas atmosferas na mesma apresentação?

A transparência é a essência da grandiosidade, porque está ligada à dedicação e ao prazer com que se faz o que se ama. Procuro manter-me íntimo do público exercendo essa transparência. E as pessoas vêm comigo espontaneamente.

Os momentos mais esperados dos seus shows são os solos de violão. Haverá aqui também? Como serão?

O violão passou a ser o prolongamento de meu corpo, merecendo dedicação diária de afeto e aprimoramento. O violão me faz dialogar com Deus e a música é a escritura desse diálogo. Tocar violão, para mim, é respirar com as mãos, e a música é o ar em forma de acordes. Quando solo uma canção parece que transmito tudo isso para as pessoas, em momentos de profunda concentração e euforia que não podem faltar num espetáculo.

Você tem uma relação com o Pinheiros, já foi associado. Como você entrou no Clube e do que mais se lembra?

Houve uma época em que frequentei o Clube com muita assiduidade. Fiz muitos amigos e a sinuca era nosso maior elo. Fiz vários shows no Pinheiros e quando volto sempre me sinto como se o frequentasse todos os dias.