11.7.07
[Natação] Cielo disputa o Pan-Americano como favorito nas provas mais curtas de natação

Dois anos antes de Gustavo Borges se despedir das piscinas, na Olimpíada de Atenas, em 2004, um adolescente de 16 anos, alto e longilíneo chegava ao Pinheiros disposto a treinar ao seu lado. Não só treinou como recebeu alguns conselhos e bateu os recordes do ídolo. Tomou o caminho dos Estados Unidos, coleciona recordes e foi eleito, nesta temporada, o melhor nadador do NCAA, o forte campeonato universitário americano.
É por essas e outras que Gustavo não tem dúvida: César Cielo é o herdeiro dele e Fernando Scherer, o Xuxa, nas provas de velocidade. “Ele me deu muito trabalho no término da carreira. Está tendo resultados impressionantes. Bateu vários recordes e tem o melhor tempo em jardas do mundo. César vai ser o grande nome do Pan do Rio”, disse Gustavo.
A admiração e o respeito são mútuos. César guarda como relíquia a bermuda com que o medalhista olímpico nadou nos Jogos de Sydney, em 2000. Ele a usou uma vez e decidiu colocá-la numa moldura, em casa. “Ele me deu o pé-de-pato também. Pediu que usasse a bermuda, que daria sorte. Usei e guardei. Cheguei como campeão de categoria ao Pinheiros e evoluí muito treinando com ele, que ganhou o NCCA quatro anos seguidos. Ele até mudava meu treino e deixava ó técnico bravo”.
A evolução foi rápida mesmo. Em seu primeiro Mundial em piscina longa, este ano, ficou em quarto lugar nos 100m livre, e oito centésimos o separaram do ouro.
O pai e xará garante que o filho virá para o Pan disposto a nadar os 100m livre abaixo dos 48s. A barreira já foi vencida pelo holandês Pieter van den Hoogenband, recordista mundial com 47s84: “Não sei se vou fazer os 47s, mas estou indo para baixar meu tempo (48s51)”.
Na semana passada, César foi convidado para um meeting na Itália com alguns dos melhores velocistas do planeta. Venceu os 50m livre. Chegar à frente de grandes nomes como o bicampeão olímpico dos 50m livre, o americano Gary Hall, virou rotina. “Ganhei dele num Grand Prix e ele veio me falar que no Pan vamos ver como vai ficar a história”, ri.
Flávia deu ‘empurrão’ para o filho brilhar
Foi durante uma palestra, que a mãe de César Cielo mudou o rumo da carreira do filho. Sabendo que Alberto Silva, técnico de Gustavo Borges, também estava lá, Flávia resolveu falar com ele.
O episódio ainda é lembrado com muito sorriso pelo treinador. “Pensei que fosse papo de mãe, de quem queria ver o filho treinando com o Gustavo. Soube que César havia sido campeão brasileiro de categoria uma vez. Aí, disse a ela que levasse ele lá no Pinheiros no fim do ano para a gente ver”, riu.
Poucos meses depois, César foi convocado para uma etapa da Copa do Mundo no Brasil. Deixou o treinador impressionado. “Ele terminou a prova e Albertinho veio nos procurar marcando um encontro e dizendo que queria pagar para ir para a equipe do Pinheiros”, diverte-se o pai e pediatra, César.
O menino de Santa Bárbara d’Oeste passou por situação semelhante antes de encantar o técnico da Universidade de Auburn. No Mundial de piscina curta em Indianápolis-2004, a mãe quis conhecer um técnico que fosse bom em velocidade. “Ele viu o Cesão nadar e disse que daria 100% de bolsa”.
RESPEITO FOI CONQUISTADO A CADA VITÓRIA
Quando chegou aos EUA, César Cielo era apenas um nadador vindo do Brasil, que o técnico da Universidade de Auburn dizia ser bom. Os companheiros de equipe não faziam fé nele. Ficou treinando primeiro num clube. Mas na primeira oportunidade que teve, numa seletiva aberta, o velocista tratou logo de mostrar seu cartão de visita.
“Para eles, Cesão era só um brasileiro caipira e magrinho. Então, ele deu pau no Ricardo Busquets, que era o cara da Universidade. Ficou um silêncio na arquibancada, que o César pensou que iria se afundar ali”, lembra o seu pai.
No dia seguinte, nenhuma palavra. Precisou de mais um para que os companheiros falassem com ele. “Ficavam bravos. Achavam que o técnico puxava meu saco e jogavam meu material, essas coisas. Comecei a bater recordes, a ganhar, e tudo mudou”, disse o nadador, que estuda Criminologia e Espanhol.
Hoje, ninguém contesta se César tem direito a três armários no campus: “Meu antigo treinador está trabalhando com a seleção americana e nesse período foi proibido de falar comigo, porque nesse momento somos rivais. É legal ser respeitado nos EUA”.




