O histórico Estádio Olímpico de Londres, sede dos Jogos Paralímpicos de 2012, foi palco da coroação de Petrúcio Ferreira. Realizado em junho, o Mundial de Atletismo Paralímpico reuniu cerca de 1.200 atletas de 90 países, mas nenhum foi mais rápido que o pinheirense.

O velocista faturou os títulos dos 100 m e 200 m T47 (amputados de braço) com direito à quebra de seus próprios recordes mundiais nas duas provas. O primeiro pódio foi conquistado nos 100 m, com recorde mundial na classe com 10s53, e a consagração foi nos 200 m, com a nova marca mundial de 21s21.

Aos 20 anos e de olho nos Jogos Paralímpicos de Tóquio-2020, o paraibano de São José do Brejo do Cruz, no sertão do Estado, conversou com a Revista sobre o momento que vive na carreira, o que pensa antes de cada prova e como mantém a alegria apesar da pressão.

Petrúcio Ferreira

O que passou na sua cabeça antes da largada nas provas em que você bateu os recordes?
Na verdade, antes, bem antes, tem um aquecimento e eu gosto de ouvir algumas músicas, como Moleque de Vila, que é uma das canções que mais escuto antes das competições. A letra fala da realidade de hoje, que às vezes é difícil você vencer, mas se você tiver fé, foco e força, tudo você pode. Tudo pode se tornar realidade. Porque quando eu entro na pista, ajusto o bloco, não penso em mais nada. Não ouço mais ninguém. O estádio por mais lotado que esteja, para mim, quando estou no bloco, está o maior silêncio. Só escuto a batida do meu coração. Quando dá a largada, só vem um pensamento: correr, correr, correr, correr.

Em que momento você percebeu que tinha superado seus recordes mundiais?
A realidade para mim sempre cai quando volto para casa, no Brasil, e começo a ver os vídeos que eu fiz na competição. Aí, sim, começa a cair a ficha e eu passo a entender o que eu fiz.

Como fica a sua cabeça agora que você tem dois recordes mundiais e uma medalha paralímpica?
Prefiro nem lembrar do que aconteceu, mas sim que hoje faço isso por amor. Represento o meu País por amor. Treino, gosto, corro com alegria. Sempre que entro em uma prova brinco que vou apostar corrida, brincar. Brincar de apostar corrida. E isso acho que me deixa um pouco mais leve, sem tanta cobrança. Acho que o atleta quando passa a se cobrar muito, fica um pouco chato, acaba não obtendo os resultados que ele esperava.

Você acha que dá para manter essa alegria na prova sendo um recordista mundial?
É um pouco complicado, mas sempre quero levar a alegria para as minhas competições e chegar pronto para dar o meu melhor. Às vezes, penso que não sou recordista mundial, as marcas estão lá para ser quebradas.

A competição aconteceu onde foi a Paralimpíada de Londres. Já deu um gostinho? Como está a preparação para Tóquio-2020?
Ainda há alguns degraus para subir e alguns trabalhos a ser feitos para chegar a Tóquio-2020. Tem muito para melhorar para chegar bem à próxima Paralimpíada. Um dos primeiros passos foi esse agora no Campeonato Mundial.

Como começou sua história no esporte?
No começo eu gostava muito de jogar Futebol. Sempre dizia para a minha mãe que sonhava em um dia representar o meu País. E aí eu jogando Futsal, representando o time do colégio da minha cidade, um cara me viu e me convidou para participar da prova do Atletismo. Eu nunca imaginaria entrar no Atletismo, nem sabia que era veloz. Dessa oportunidade que apareceu, fui fazer o teste e, então, as portas se abriram para mim.

Você saiu de uma cidade pequena e conquistou dois recordes mundiais. Como construiu essa história?
Minha primeira competição pela Seleção foi no Chile e minha segunda competição foi em Paris, países que eu nunca imaginaria conhecer. Comecei a viajar para outros países, muito distantes da minha realidade na cidadezinha do interior, com menos de dois mil habitantes. Eu morava no interior e meu pai trabalhava na agricultura, mas eu nunca deixei de acreditar que um dia meu sonho se tornaria realidade. A galera brinca: ‘de São José do Brejo do Cruz para o mundo’.

Como é voltar para lá?
É muito legal. É uma cidade pequena e todo mundo se conhece. Quando voltei lá todos queriam tirar foto. Uma história bem legal na minha cidade é que a criançada se inspira em mim. Quando brincam de apostar corrida, dizem: ‘eu sou o Petrúcio’. Todos querem ser o Petrúcio para correr. Isso é legal, me inspira mais ainda. Antes, eu me espelhava em outras pessoas e hoje vejo a meninada dizer: ‘hoje vou correr igual o Petrúcio’. Isso é muito bom.

Qual a importância do Clube nessas suas conquistas?
Também tinha o sonho de representar um clube. E sempre ouvia falar do Pinheiros, por ser grande e ter vários atletas representando o Brasil. Daí comecei a fazer parte do ECP e isso me alegra mais ainda, porque um sonho de criança se tornou realidade novamente.

Petrúcio F

Fotos: Comitê Paralímpico Brasileiro